miércoles, 15 de febrero de 2017

Terreiro - Fotos por Melissa Rahal
































Melissa Rahal é fotógrafa, produtora e bacharel em Direito (tendo advogado até 2014). Como fotógrafa, tem sua principal atuação na área publicitária e na área documental, onde seus interesses convergem para religiões de matriz africana, para o trabalho e para o cotidiano.




(foto: Érika de Faria)

viernes, 10 de febrero de 2017

RECUSA: por uma dramaturgia outra, Daniel Graziane




RE.CU.SA1. Não aceitar = declinar, rejeitar 2. Não permitir, não conceder. 3. Não dar ou não  atender a um pedido. 4. Não querer. 5. Não admitir. 6. Evitar, furtar-se, resistir 07. Não se prestar a; não querer. 
Cia Balagan de Teatro

Um dos modos de visualizar a dramaturgia contemporânea brasileira é perceber suas diversas formas de criação: cada processo traz um resultado associado ao percurso criativo; cada metodologia empregada carrega uma postura política no ato de criação, perspectivas com múltiplas possibilidades de escrita e leitura. Recusa, material teatral escrito por Luís Alberto de Abreu junto à Cia. Balagan de Teatro, é o texto objeto deste estudo. O projeto, que resultou no texto, iniciou-se em 2009, em diálogo com o conceito de perspectivismo ameríndio formulado pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Trata-se de um entendimento segundo o qual o mundo seria habitado por diferentes espécies de sujeitos, humanos e não humanos, que o apreendem segundo perspectivas distintas:

Em cada corpo se desenha uma perspectiva do mundo. Reconhecendo a humanidade como elemento não exclusivo aos homens, os índios da América ensinam: a realidade, mesmo sendo una, pode ser lida a partir de distintos pontos de vista, sendo que aquilo que existe para um é apenas parte do que existe para o outro. (ITOCAZO, p. 7)

Assim, o processo de Recusa é uma composição originada a partir de diversos pontos de vista e múltiplos vetores. O modo de criação assume uma hierarquia em que muitos corpos, olhares e subjetivações desenham a narrativa. Seria possível um texto realmente ancorado no perspectivismo ameríndio? Como um processo criativo trilhando tais caminhos pode resultar em uma recusa afirmativa a outros modos de criar? Qual ampliação no campo dramatúrgico é operada a partir da criação de Recusa?

Um dos fatores a ser considerado na escrita deste texto é a diversidade de fontes de inspiração, vindas de muitos materiais textuais:

Recorremos a diversos materiais textuais, encontramos outros textos jornalísticos, estudamos fontes da literatura antropológica, pesquisamos mitos das cosmologias ameríndias oriundas de fontes distintas e textos que abordam a questão indígena na América de forma antagônicas, revelando os inúmeros prismas que o tema comporta. (ITOCAZO, p. 10)

Esse uso de diversos materiais textuais reverbera no texto por meio de uma grande polifonia de vozes, revelando, possivelmente, um dos traços do perspectivismo ameríndio. Lendo Recusa, pode-se perceber que, no mesmo emissor, há várias vozes, sem, necessariamente, haver uma mudança de personagem. 

Na escrita do texto, há, por exemplo, a mudança do modo de subjetivar de um personagem; no entanto, o autor não muda o emissor. Não é o caso de um ator interpretando vários personagens (o que pode acontecer na performance teatral), mas o caso de um emissor que transita por várias vozes distintas e vários modos de subjetivação. Há saltos de perspectivas. O autor mantém o mesmo emissor – quem emite é Pud e Pudlere, os dois personagens da obra –; porém, lendo o texto, é possível perceber, claramente, o trânsito de diferentes discursos. 

Na maior parte do tempo, os emissores apresentam características e vivências ameríndias, mas hora ou outra se percebe a mutação do modo de subjetivação, ao assumirem discursos de fazendeiros, de profissionais da mídia e da imprensa ou mesmo de uma onça pintada. Esse elemento, no mínimo, traz ao texto uma problematização da ideia de identidade presente em diferentes culturas.

Assim como a polifonia dos modos de subjetivação, a diversidade das fontes gera, também, a polifonia das formas narrativas em uma linguagem heterogênea e não linear. No texto, misturam-se o guarani, o ameríndio e o português brasileiro.  Há uma variação incomum de línguas. Essa característica concede ao leitor e, principalmente, ao ouvinte – principal alvo da dramaturgia – um caráter poético e vigoroso. 

Esse caráter surge, primeiramente, nos próprios atores que participaram da criação do texto, através de experimentações, vivências, sugestões e outros processos. No caderno da Cia. Balagan, que detalha aspectos da criação de Recusa, lê-se que os atores, em alguns momentos, decoraram textos em guarani, cujo significado não compreendiam. Mesmo não apreendendo o sentido daquilo que decoravam, trabalhavam a potência que poderia se revelar em outra chave, como a musicalidade. Isso, posteriormente, foi formalizado e transformado em escrita. 

Nesse sentido, o irreconhecível, possivelmente, atuou como motor para criar um universo sensível. Sabe-se que se ouve, mas não se sabe o quê. Sabe-se que se vê algo, mas não se reconhece o que é visto: o inconsciente funciona como usina da palavra criada. 

Recusa tem sua gênese numa pesquisa empreendida pela Cia. Balagan, a partir de uma notícia de jornal (Folha de S. Paulo, 16 de setembro de 2008). Funcionários da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Rondônia teriam recorrido ao Ministério Público Federal para proteger uma área onde foram encontrados dois índios da etnia Piripkura, considerada extinta há mais de 20 anos. Curiosamente, foram encontrados rindo. Apesar dos risos, a área era uma zona conflituosa, ocupada por madeireiros que questionaram a Funai quanto à preservação de uma espécie da qual restavam, somente, dois homens e nenhuma mulher.  

Várias perspectivas de uma realidade; várias diferenças; várias zonas irreconhecíveis. O encontro entre aqueles que se diferem e que não necessariamente precisam superar a diferença, mas apenas estar conscientes dela e saber da parcialidade de cada experiência, é uma perspectiva que se desloca a todo tempo. 

Na recusa ao modo tradicional de escrever esse texto, um dos caminhos percorridos pelos que criavam a obra foi a relação de trocas. As partes – atores que representariam a peça e o dramaturgo – retroalimentaram-se. Uma das contribuições para o deslocamento dos modos tradicionais de dramaturgia, presente na escrita de Recusa, é, justamente, provocada pelas práticas dos artistas envolvidos. Em seu caderno pedagógico sobre Recusa, a Cia. Balagan relata que trocou experiências com os indígenas Paiter Suruí, de Rondônia, mesmo Estado onde estavam os Piripkuras. Como consequência dessa vivência, Marluí Miranda, uma Paiter Suruí, veio a ser a diretora musical do processo de criação. Esse encontro, inevitavelmente, trouxe à escrita desse texto outras reflexões que instigaram muito a linguagem utilizada nele; forma e conteúdo foram afetados. Marluí Miranda levantou reflexões acerca da forma como os índios usam o português – que, no caso, é uma segunda língua: 

As palavras são em português, mas a fala é construída e ancorada na gramática do idioma de origem do falante, ou seja, um idioma indígena. Nesta operação artigos e preposições são, muitas vezes, elididos. As relações entre substantivo e verbo são mais diretas, a fala parece ser construída com grande objetividade, evidenciando no discurso seu caráter ativo, a ação verbal da palavra. (ITOCAZO, p. 13)

Este “entre-línguas” atuou como um elemento que desestruturou a língua portuguesa, trazendo ao leitor ou ao ouvinte uma experiência incomum. Lendo ou ouvindo o texto, há um ruído que atua fora do âmbito da razão. Existe, além disso, um uso da linguagem poética, pois se inscreve como linguagem fora do cotidiano ordinário ou da escrita prosaica. Portanto, em contato com o perspectivismo, há de se perceber que, se os pontos de vista são parciais e não podem abarcar o todo, a linguagem nessa escrita também o é; por isso, recorre-se àquilo que não é conhecido e acessam-se outros pontos de vista, também da linguagem. 

Nesse sentido, parece incontornável a contribuição dos elementos do processo criativo. O encontro com Marluí Miranda influenciou fortemente a escrita, haja vista elementos propostos por sua reflexão presentes em toda estrutura de Recusa. Marluí, por ser compositora e cantora, apresentou aos criadores cantos ameríndios, o uso desses cantos no universo indígena e a natureza do verbo. 

Logo, a musicalidade presente na escrita de Recusa pode ter brotado de tais provocações. Essa musicalidade do texto, esse desordenar, esse cantar presente na escrita vêm, também, das pesquisas sobre xamanismo feitas pelo grupo que, certamente, influenciaram o texto, tornando a dramaturgia mais próxima das tradições amazônicas. Os sons da floresta e o poder da palavra atuam na transição entre dois mundos; o poder da palavra e a criação das realidades são como no gênesis bíblico, em que a ordenação “faça-se luz” inicia um universo:

Ao dizer “onça”, a onça existe. E se vemos a onça na floresta, a floresta existe. E nós diante da floresta. Podemos criar a figura “onça” e a paisagem “a floresta”. Diante disso, tudo pode acontecer. Ao dizer “a onça esturra lá distante” criamos profundidade, fomos para além de onde estamos. Na pergunta “a onça vem?” criamos um possível acontecimento, uma condição... (ITOCAZO, p. 27)

A escrita que recusa certos mitos pode afirmar outros e refazer o hall de representações. Outras perspectivas passam a ter possibilidade de serem lidas. Dramaturgicamente, linhas de fuga são criadas. 

A cada escolha, há uma série de possibilidades que são deixadas de lado. A cada recusa, há uma afirmação de outra ordem e, muitas vezes, em arte, aquilo que não se escolhe pode importar tanto quanto o que se escolhe. Escrever é ampliar as fronteiras do universo humano. Segundo o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, as fronteiras de nossa linguagem são as fronteiras de nosso universo (WITTGENSTEIN, 2002, p. 114). Refazer a linguagem através de dramaturgia, que pode ser performatizada em quatro dimensões num espaço cênico, pode, de alguma forma, refazer parte do universo? 

Os modos de falar, de narrar, expressam a construção de seus mundos, suas estruturas de pensamento. Contar, narrar um mito é vivenciá-lo novamente, atualizá-lo. Quando se conta um mito não se narra um passado ou um tempo histórico, não se representa algo que já se foi, ao contrário, confirma-se o presente, vive-se a coisa em si, o mito se refaz. (ITOCAZO, p.12)

No texto de Luís Alberto de Abreu, há a recusa de certo tipo de civilização; existe, ainda, a recusa à identidade estável, à linguagem unívoca e, sobretudo, ao tempo linear, “pois se a apreensão da realidade para os ameríndios é sempre parcial, um ponto de vista, como compor uma cena análoga aos seus modos de pensar, tomando um mesmo fenômeno em diferentes pontos de vista? ” (ITOCAZO, p. 29).

Um dos caminhos tomados pela dramaturgia de Recusa é sair do tempo linear e cronológico, usado em muitas escritas teatrais, e criar uma movimentação pelo deslocamento espacial. O caráter formal da obra recusa algo, e isso ocorre por influência do perspectivismo ameríndio. Mudar de espaço, ao invés de mudar de tempo, faria com que houvesse um deslocamento de perspectiva. Dessa forma, sem início e fim, a dramaturgia apresenta-se mais como uma rapsódia, em que várias passagens existem em forma de fragmentos, sem hierarquia entre si. Essa recusa do uso da hierarquia confere um caráter político à obra, e tenta dar conta de uma recusa de organização liderada pelos sentidos humanos, como a ideia de tempo. Logo, há uma problematização do uso do tempo na dramaturgia e na escrita contemporânea, movida pela provocação do perspectivismo ameríndio. Ao lidar com essa problematização, os criadores do texto trazem ao campo literário singulares aspectos da escrita que colaboraram com a ampliação do fazer estético. 

O perspectivismo ameríndio desloca a dramaturgia de Recusa para um ponto de vista outro. Grande parte da dramaturgia produzida no Brasil está ancorada em preceitos do teatro europeu, que influenciou muito a produção do Sudeste brasileiro devido à presença de imigrantes. Ou, ainda, são escritos decorrentes da influência aristotélica, que analisou algumas tragédias gregas e acabou por formalizar este material sendo depois amplamente estudado por diretores e dramaturgos.

Grande parte da escrita teatral encontra identificação com um ponto de vista do fazer teatral. Ao acessar as pesquisas antropológicas de Eduardo Viveiros de Castro, a Cia. Balagan e Luís Alberto de Abreu ousaram uma organização diferenciada do texto. Ao adotar outros pontos de vista, a dramaturgia consegue sair da ordenação comum e experienciar outras estéticas. 

É fato que o teatro ancorado na influência europeia tem seus conflitos dramáticos baseados no antropocentrismo: questões do homem movimentam e estruturam a escrita; sentimentos e sensações catalogadas ganham vida nos palcos. Porém, o teatro, em sua quadridimensionalidade, tem o potencial de abarcar discussões e proporcionar experiências únicas aos envolvidos. Onde é possível dar vida ao inexistente? Em que arte se pode fazer surgir, diante dos olhos da plateia, a criação do artista? 

Não se pode negar que, muitas vezes, esse processo se inicia já na escrita dramatúrgica; portanto, estes elementos estão intimamente ligados em potencia possibilidade. Porém, quando os textos teatrais trazem sempre os mesmos conflitos e sentimentos, as vivências se normatizam e a ampliação do campo estético não ocorre. Isso se dá porque a criação busca movimento em pontos de vista culturalmente hegemônicos; logo, não há singularidade. Quando há o deslocamento do ponto de vista, como houve em Recusa, é possível virem à tona outras perspectivas, por exemplo, fora do antropocentrismo e fora de um lugar comum sobre o que é humanidade. 

Na teoria do perspectivismo, cada animal ou espírito vê a si mesmo como humano. Quando o ponto de vista de uma onça ou de um espírito se faz presente na escrita, ascendem à dramaturgia conflitos ainda não estabelecidos, sensações não vivenciadas, o que amplia a possibilidade também estética. Cada conteúdo pede uma forma; portanto, conteúdos não normatizados pedem, consequentemente, formas com outras organizações. Essa é uma das contribuições à escrita contemporânea proveniente dessa partilha de experiências entre os envolvidos na criação de texto. O resultado do processo e a influência do perspectivismo ameríndio são o motor desse aporte. Da mesma forma, um movimento surge da recusa de algo por uma dramaturgia outra:

Tipicamente, os humanos em condições normais, veem os humanos como humanos e os animais; quantos aos espíritos, ver estes seres usualmente invisíveis é um signo seguro que as “condições” não são normais. Os animais predadores e os espíritos, entretanto, veem os humanos como animais de presa, ao passo que os animais de presa veem os humanos como espíritos ou como animais predadores. (CASTRO, 2013, p.350).

 Considerando alguns traços do perspectivismo, pode-se perceber que, na dramaturgia sobre a qual discorremos, adota-se a recusa a uma escrita antropocêntrica para deixar surgir um texto onde flutuam diversos pontos de vista. Isso gera diferença, no conteúdo e na forma, que pode ser percebida na disposição das falas de cada emissor e na construção do espaço, o qual substitui o tempo como elemento que desloca e faz seguir o texto. Assim, sem deslocamento de tempo, não há linearidade, mas saltos espaciais que impedem a concepção de um começo, meio e fim; no lugar disso, há ocupações de um espaço que presentifica a experiência.  

Ao recusar um modo de fazer, os envolvidos na criação desse texto abrem espaço para um fazer que se configura no texto estudado; uma escrita singular, que é como é porque se recusa a ser de outra forma. Como os índios que recusaram contato com não índios, o texto recusa um caminho simplista para lidar com a mitologia ameríndia e, ao abordar o outro, busca, minimamente, conhecer o ponto de vista deste outro e incluir-se nesta perspectiva. Rejeita qualquer olhar clichê e folclórico, e faz isso em toda a construção do texto. Não se trata de uma escrita consolidada ou reconhecível, mas algo da ordem da alteridade, que abre muitos caminhos para quem frui tal texto. Não é unívoco, por isso permite inúmeras leituras do mundo e das letras ali dispostas. 

Recusa dialoga com o perspectivo ameríndio; os criadores não hesitam em demonstrar de onde falam e em quais tradições tal escrita está inscrita. Ao deslocarem, inclusive fisicamente, rumo à direção Norte do Brasil, deslocam também seus pontos de vista sobre o fazer dramatúrgico. O contato com os ameríndios impregna o texto e dá vazão a outros olhares no âmbito da criação. 

Se há múltiplas perspectivas, há múltiplas formas de se escrever e de se fazer dramaturgia. Existindo múltiplas formas de se habitar a escrita, logo, há muitas formas de habitar o mundo e a existência. Como na escrita de Recusa, o universo abarca muitas perspectivas; dessa forma, uma contribuição considerável desse texto pode ser colocar em xeque jeitos elencados do fazer literário, demonstrando que é impossível um caminho único, são preferíveis estradas provisórias. Ao dar voz a outras mitologias, este texto mostra que não há uma história única ou únicos heróis, mas um universo construído por muitas vozes, olhares e letras. É um texto que “age para que os mundos não se percam nem se confundam, mas que, pelo contrário, se reconheçam nas diferenças” (ITOCAZO, p. 25).



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

CASTRO, Eduardo Viveiros de. A Inconstância da Alma Selvagem. 5.ed. São Paulo: Cosac & Naify, 2013. 552 p.

ITOCAZO, Gabriela (Org). Cia Teatro Balagan. Caderno Pedagógico Recusa. [s.l.]: [s.ed.], [entre 2009 e 2011]. 33p. 

WITTGENSTEIN, L. Tratado Lógico Filosófico; Investigações filosóficas. Tradução M. S.
Lourenço. 3 ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.





Daniel Graziane é Dhaniel Graziane da Silva Ruggio. Paulsitano; pesquisa dramaturgia e roteiros audiovisuais. Atualmente é pai de Júlia Flor. Mora no Rio (Vidigal), mas já passou por Londres, Dinamarca e Rondônia. Autor de textos como Fogo Azul de Um Minuto, Levante, derivado Intransitivo e Musica Desaparecendo no Rosto.

domingo, 5 de febrero de 2017

Trechos e Fotos da Anti-Ópera - Rua Carne Entre as Articulações






para além das palavras e dos coágulos
meu sangue é uma enxurrada suja
dor miserável e latas com ferrugem
minha ovulação valvulada fecunda
as ruas da redondeza onde não chove
mas chega o cheiro podre de depois da feira
resmungo aqui e lá a boca chiusa
minha ovulação valvulada e cadeados siameses
o meu peito é uma esquina falsificada
o meu povo são gente que gargareja o sol
tapetes de fogueira e o assédio sorrateiro
de mamíferos pulgas escaravelhos
remédios que tomo pra que nossos filhos não nasçam
minha ovulação valvulada e seres minúsculos
escorre tudo aquilo que não foi vértice e núpcias
minha ovulação valvulada e uma ave agourenta
que não voa e o dia todo se coça e caga
caga em tudo um inseto plumado uma pedra com asas
um teto que cai como adormece um animal doméstico











"A Cidade Que Matou EduGair" é uma das obras musicais integrantes do espetáculo:





*


não nasci pra carregar a febre
dos que ficam pra testemunha
dos que sobrevivem
dos que restam
dos que atravessam
o deserto
sem uma estrela na testa
como se merecessem
ter estômago forte
o sangue frio
pra suportar o baque
pra varrer os cacos
sobreviver
pra limpar o sangue
queimar as roupas
que os hóspedes
mais apressados
esquecem no armário




"Decreto de 1935" é outra das obras musicais integrantes do espetáculo:











*

Composição Musical: Marco Antônio Machado e Bruno Ishisaki 
Encenação e Libreto-Dramaturgia: Marcus Groza
Direção de Movimento: Robson Jacqué
Fotos da Estreia: Maria Tereza Costa

miércoles, 11 de enero de 2017

Poema de Felippe Regazio



o estranho teorema das nuvens


hoje eu pensei
em mil
respostas
pra te dar

puta merda
eu me dei
mil respostas imaginárias
e fiz café
e mate
e pão na chapa
e macarrão
e não dormi de novo

eu pensei em mil respostas
e em mil desculpas
e em mil coisas nenhumas
pra falar
mas eu ando
tão cansado

eu pensei em mil teorias
autores
referencias
links
memórias
impressões
coisas bonitas
e coisas perfeitas
pra jogar na sua cara

mas, merda
eu ando mesmo muito cansado.

eu deixei a televisão ligada
enquanto cozinhava e fiquei
escutando as notícias dos crimes
e mortes e comerciais e ambição
e lá fora tinha começado a nascer
um dia terrívelmente incrível

desses qu'eu não gosto
porque eu prefiro o frio

mas dessa vez não,
dessa vez
o dia tava irritantemente lindo
e eu senti o gosto
do tempero industrial
e o cheiro do alho
queimando na panela
e aquela velha impressão
de irreversibilidade
que me assusta
de uma forma
infantil e, uau,

gostar de você
já não me serve mais pra nada

e eu senti tanto por isso
eu senti tanto pelas nuvens
se afastando num estranho
teorema de despedia
e pelas notícias na televisão
e por aquela manhã e
por existir
naquela mesma manhã
de uma maneira
tão estúpida e bruta
que o mesmo dia
poderia ter nascido
limpo e belo
exatamente do mesmo jeito
mas sem mim,

eu senti tanto
que tenhamos nos amado tão mal.

daqui umas semanas
eu vou subir pro
norte e ser covarde
e lunático e egoísta
como você disse

eu vou respirar o ar
da mantiqueira
e choromingar por comida
e criar calos nas mãos
descarregando carga
pra caminhoneiros
qu'eu nunca mais vou ver

eu vou cortar os pés
em cacos de vidro
e adoecer e me curar
e fazer amigos
que serão
pra sempre estranhos
e lembrar de você
e de tudo mais pelo caminho
gastando o mesmo chinelo velho
até sentir que os meus motivos
pra ter escrito tudo isso aqui
já estarão longe o bastante pra caber em mim.




Felippe Regazio atualmente vive em São Paulo e escreve. Publicou “Oceana” em 2013 pela editora Ponto da Cultura e “Atentado Contra a Vida das Coisas Belas” em 2015 em edição artesanal. Em 2016 recebeu menção honrosa pela Universidade de São Paulo com os poemas do livro “Sonata em Mi Menor Para Porcos e Outros Quadrúpedes”. Felippe organiza “antologias alternativas” e tem diversos trabalhos publicados em revistas como Subversa, Labirinto Literário, Mallarmargens, O emplastro.

domingo, 11 de diciembre de 2016

As noites e noites de Michele Navarro


uma noite passeio


tínhamos

um tatame

inteiro

pela frente

trocamos

por um ti-ti-ti

trágico

no meio fio

dias atrás


uma back-space noite

essa noite escrevo volto apago escrevo volto apago escrevo volto apago. volto. eu volto. volto pra molhar as plantas e a chuva chega antes e me enxota


uma noite a meia noite

chego

sem jeito

às dez

com sotaque

mineiro

ao revés

me ajeito

sem ponto

às onze

entorpeço

a teus pés

confessa

de cara

desejos

com acento

agudo

sem gênero

com gíria

lascívia

a cem

por cento

à meia-noite

conversa alheia

dispersa

...

diz "amoR"

com éRRe

Rasgado

Re-veRsa


uma noite pró-nomes

eu/ela êne, conectada e prostituída debruçada sobre a inclusão virtual já vencida, eu/ela êne excluída de sua/minha hippice forjada fornadas de hojes - selfies instantâneas desde ontem forjará filtros. dispositivo impositivo touch. aplicativos da vida moderna. eu/ela êne filtrada em anabéla éla pronta para qualquer personagem, por exemplo, Mefisto, aquele do fausto. eu /ela êne-éle mito, invisto em vestes. nós (,) cegos.
Michele Navarro é poeta, bailarina, atriz e professora. É do A, B e C de São Paulo. Fez maternal, pré-primário, primeiro, segundo e terceiro grau. Depois seguiu em formações livres enquanto esses termos todos mudavam de nome. Tem 37 anos, é integrante da Cia Les Commediens Tropicales, do Corpo Docente da Escola Municipal de Iniciação Artística e da coordenação editorial da Editora Lamparina Luminosa.  Em fevereiro de 2016 publicou seu primeiro livro de poemas “noite uma.a.uma”.  É dada a misturas por natureza e conjunturas. Já pariu um ser humano, já publicou um livro, nunca plantou uma árvore.

miércoles, 7 de diciembre de 2016

Para Iza de Nina


Zizi, continuamos aqui.

No dia seguinte do seu velório, apareceu nas redes sociais "Morre aos 30 anos..." Eu tive raiva de ver aquilo. Uma raiva sem sentido. Mas era como se eu não quisesse que as pessoas noticiassem sua partida assim tão rápido, de maneira tão desabrida. Pra mim, isso só poderia ser pronunciado aos sussurros.

Hoje faz três meses. Continuamos aqui. Um pouco desarvorados, não sei bem se mais que antes. Mas certamente mais tristes, mais distantes daquela nossa alegria inventada a muito custo. Estamos aqui e sua risada é sempre muito presente. Seu desdém para a nossa gravidade de levar as coisas muito a sério também. Rio e choro com essa sua presença-ausência. O nosso vai-e-vem desenfreado continua e você continua conosco. Não sei por que estou fazendo esse post. É uma tentativa de sussurro talvez. Ou deve ser porque as coisas andam cada vez mais sem sentido e pra dizer que você continua, continua... 

com amor Marcus







| Fotos: Marcus Groza - São Bento do Sapucaí, 2012|






Aqui uma carta que a Julia Mendes escreveu pra você e que mostra que você continua, continua... 



Zizi, para onde reportar essas cartas que eu escrevo?
te vejo em tantos cantos da cidade, uma cidade avessa, submersa, y quase sempre, querida, nos meus sonhos. há alguns dias descobri uma pequena parte sua que você deixou aqui. há meses, muitos meses mesmo, você esqueceu um relógio de pulso na minha casa: eu até pensei na época: quem é que anda com relógio de pulso nos dias de hoje? y ri, porque você era dessas, de relógios de pulso y galochas. cheguei a levar o relógio diversas vezes para são paulo, mas entre as conversas, fugas, encontros nossos sempre me esquecia de te devolver y acabava trazendo-o de volta para casa - a ver que o relógio percorreu mil vezes esse caminho da dutra, que nós mesmas também percorremos tanto juntas. a questão é que esse (maldito y bendito) relógio sempre apitava à noite por conta de um alarme que você havia programado para lembrar a hora do remédio que estava tomando - já não posso recordar qual. y por todos esses meses desde que você o esqueceu, o alarme seguia apitando, y eu só me recordava dele ao despertar com o barulho y pensava maldito! bendito! relógio! teve vez de alguém me perguntar "por que esse relógio apita todo dia? de quem é esse relógio? por que você acorda todo dia a essa hora?", e eu tentava responder simplesmente com o seu nome "iza", como se o seu nome fosse capaz de explicar qualquer coisa fora de órbita y que circundava também todas as coisas que faziam parte desse amor e dessa amizade. eu também não sei porque mas nunca tive a brilhante ideia de desligar o alarme, que era obviamente incomodo, mas cômico, em qualquer circunstância. voilá... faz tanto tempo que eu não ando perto de casa, dessa casa aqui, que eu havia me esquecido disso tudo. y agora, ao volver em terras cariocas, nesses dias mesmo quando fui dormir, de repente ouvi o maldito-bendito! alarme: tomei um susto: desses que são como uma lembrança severa... levantei rapidamente e corri atrás do relógio. derrubei tudo no escuro para achá-lo. achei. fitei-o por bons minutos. ri. e segui por tanto tempo rindo até ser capaz de chorar um pouco. ri. ri. ri. oh, querida, agora eu é que não sei mesmo o que fazer com esse relógio que dorme no meu pulso y me acorda todo dia às 23h50, com gargalhadas y prantos, gargalhadas y prantos, e que espero aos poucos tornarem-se apenas gargalhadas, y que espero também sempre poderem me fazer lembrar de ti assim. porque você era assim. de relógios de pulso y galochas.








| Fotos: Marcus Groza - Bairro do Souza, Monteiro Lobato, 2015 |

Rua Carne Entre as Articulações - Anti-Ópera







Direção Cênica e Libreto-Dramaturgia: Marcus Groza
Composição Musical: Marco Antônio Machado e Bruno Ishisaki
Direção de Movimento: Robson Jacqué

PROGRAMA COMPLETO DO ESPETÁCULO

martes, 29 de noviembre de 2016

Poemas de Renata Tavares

se eu pudesse apenas brilhar,
parapeito,
seríamos eu e você
nesse mundo mais ou menos
que provoca ânsia em Deus.
se eu pudesse cantar
sem relógios
boletos
considerações
seríamos eu e o mar,
tresloucantes,
espumados
pontuais
se eu pudesse, vida
ser-te
não agarrava essa garrafa
pouca
média
rala
(se eu pudesse,
montanha
te alcançar
no cume do mundo,
no princípio, no
avesso
de mim
seria dia e lua pra sempre –
ou seja, agora)
se você pudesse, irmão
me dar a mão
eu nunca mais me importaria
com a pobreza
da rima

 ****
  

palmas



quando você me chega
com essa falta de calma
esse abraço meio beijo
essa calça meio saia

os meus olhos meus joelhos minhas misérias meus medos
minhas ideias meu sangue minha alegria meu enleio
minha vontade louca de vida
essa esperança cor-de-laranja
na minha fagulha divina
minha risível patrulha sempre-alerta que sempre erra na certa
meu balão minha bolha de sabão minha pipa

todo o meu reino
e o resto do meu
corpo inteiro

batem palmas



****


a fragilidade absoluta das coisas.
eu, coisa, a fragilidade absoluta de mim.

exclamo interrogações

é preciso ser vertical, como os prédios,
então treino: o pé direito à frente, depois o esquerdo
e assim
sucessivamente

vontade de abraçar o mar
até virar água

mas nasci bicho da terra
assim como os elefantes, macacos e
bois

sábios os elefantes, macacos e bois
que se amam
sem elucubrações
profetas
issos
aquilos

já eu, humana,
não me basto:
desenho sonhos,
penso nuvens

quero nadadeiras e asas.
invento nadadeiras e asas:
é preciso ser
vertical
ao que eu me
curvo
e protesto

edificando

poemas


Renata Tavares é poeta, mãe solo do Francisco e aspirante a cozinheira. Paulistana, canceriana e gauche na vida, ganha o pão revisando e preparando textos, mas tem na poesia (na Arte) seu ser-estar no mundo. Cursou Ciências Sociais, Jornalismo e Letras, com mais ênfase nestas últimas, mas sem canudo algum. Tem grande encanto pelo teatro, com períodos de namoro intenso e outros mais tímidos, tanto com o palco como com a dramaturgia. No mais, é boba de tudo: pouco afeita à lógica do capital, acredita que o mundo, a gente, pode ser bem mais que issozinho aí


miércoles, 9 de noviembre de 2016

Rimas Visuais - Fotografias de André de Oliveira de Andrade





































Rimais Visuais é um trabalho voltado á fotografia de rua, que surgiu a partir de minhas caminhadas pelo centro de São Paulo. Utilizando a câmera de meu aparelho telefone celular, passei a registrar cenas do cotidiano. Depois de algum tempo, passei a notar que certos elementos cromáticos e formais apareciam de forma recursiva. criando uma espécie de consonância imagética entre as mesmas. Explorando essas relações visuais entre as imagens, busco criar um retrato pessoal da cidade onde vivo.



André de Oliveira de Andrade

Nascido em 16/08/1991 em São Paulo. É professor de fotografia e desenvolve trabalhos autorais voltados à fotografia de rua.

lunes, 7 de noviembre de 2016

A Fêmea da Espécie - Rudyard Kipling (1911) [trad. Julia Debasse]


Quando o camponês Himalaio encontra o urso bravio
Ele grita para assustá-lo e ele sai do caminho.
Mas a ursa, se abordada, faz o camponês em pedaços
Pois a fêmea da espécie é mais letal do que o macho.

Quando Naj, a cobra, ouve passos humanos distraídos,
Ele se afasta para evitá-los, se assim for possível.
Mas sua companheira fica imóvel à beira do riacho
Pois a fêmea da espécie é mais letal do que o macho.

Quando os padres jesuítas pregavam aos Hurons e Choctaws,
Rezavam para se verem livres fúria das squaws.
Não temiam os guerreiros, mas as que se adornavam com penachos,
Pois a fêmea da espécie é mais letal do que o macho.

O coração manso do homem explode sem nada falar
Pois a Mulher que Deus lhe deu não é sua para dar;
Mas quando caçador e marido conversam, eles confirmam o fato –
A fêmea da espécie é mais letal do que macho.

O homem, urso de muitas formas – selvagem e verme por outro lado, --
O homem propõe negociações e aceita o combinado.
É muito raro ele negar a lógica de um fato
Até sua derradeira conclusão, em um arrematado ato.

Medo ou insensatez o impelem, antes de castigar os maus,
A conceder algum julgamento até ao pior rival.
Gracejos distraem sua fúria – Dúvida e Pena o deixam perplexo
E evitam que ele aja – para escândalo do Sexo!

Mas a Mulher que Deus lhe deu – cada fibra do seu ser
Prova que foi criada para um só fim e armada para o conceber.
E por este único fim, para que as gerações não extinguiam seu facho,
A fêmea da espécie deve ser mais letal do que o macho.

Ela que enfrenta a morte por cada vida em seu seio gerada
Não conhece dúvida ou da pena – não se distrai com fatos ou piadas.
Essas são só diversões masculinas – sua honra lá não vive,
Ela é a Outra Lei que rege, a única Lei que existe.

O poder que a engrandece, para além do qual não tem o que dar,
É como Mãe da Criança e Companheira do seu Par.
Mas, se na falta de Criança e Homem, clama o seu direito
Como femme (ou barão), e seu equipamento é o mesmo.

Ela se casa com seus ideais – na falta de laços de mais valor;
Suas crenças são seus filhos e Deus acuda quem se opor!
Não será uma discussão leve, ela imediatamente se aquece,
Lutando como se por marido ou filho, surge a fêmea da espécie.

Sem provocações ou ataques – ainda assim a ursa morde,
Palavras que escorrem, envenenam – a naja dá seu bote,
Vivissecção científica do nervo até a sua morte
E a vítima se contorce em angústia – como a squaw e o sacerdote!

E assim o Homem, covarde, quando em um concílio se congrega
Com seus bravos semelhantes, não ousa dar lugar a ela.
Onde, lutando contra a Razão e a Vida, sua mão maculada ele ergue
Para algum Deus da Justiça Abstrata – que mulher alguma concebe.

E o Homem sabe! E sabe que a Mulher que Deus quis lhe dar
Deve comandar, mas não governar – aprisioná-lo, mas não escravizar.
E Ela sabe, pois Ela o alerta, e seu instinto nunca é laxo,
Que a Fêmea de Sua Espécie é mais letal do que o Macho.


Trad. Julia Debasse




The Female of the Species - Rudyard Kipling (1865-1936)


WHEN the Himalayan peasant meets the he-bear in his pride,
He shouts to scare the monster, who will often turn aside.
But the she-bear thus accosted rends the peasant tooth and nail.
For the female of the species is more deadly than the male.

When Nag the basking cobra hears the careless foot of man,
He will sometimes wriggle sideways and avoid it if he can.
But his mate makes no such motion where she camps beside the trail.
For the female of the species is more deadly than the male.

When the early Jesuit fathers preached to Hurons and Choctaws,
They prayed to be delivered from the vengeance of the squaws.
'Twas the women, not the warriors, turned those stark enthusiasts pale.
For the female of the species is more deadly than the male.

Man's timid heart is bursting with the things he must not say,
For the Woman that God gave him isn't his to give away;
But when hunter meets with husbands, each confirms the other's tale—
The female of the species is more deadly than the male.

Man, a bear in most relations—worm and savage otherwise,—
Man propounds negotiations, Man accepts the compromise.
Very rarely will he squarely push the logic of a fact
To its ultimate conclusion in unmitigated act.

Fear, or foolishness, impels him, ere he lay the wicked low,
To concede some form of trial even to his fiercest foe.
Mirth obscene diverts his anger—Doubt and Pity oft perplex
Him in dealing with an issue—to the scandal of The Sex!

But the Woman that God gave him, every fibre of her frame
Proves her launched for one sole issue, armed and engined for the same;
And to serve that single issue, lest the generations fail,
The female of the species must be deadlier than the male.

She who faces Death by torture for each life beneath her breast
May not deal in doubt or pity—must not swerve for fact or jest.
These be purely male diversions—not in these her honour dwells—
She the Other Law we live by, is that Law and nothing else.

She can bring no more to living than the powers that make her great
As the Mother of the Infant and the Mistress of the Mate.
And when Babe and Man are lacking and she strides unclaimed to claim
Her right as femme (and baron), her equipment is the same.

She is wedded to convictions—in default of grosser ties;
Her contentions are her children, Heaven help him who denies!—
He will meet no suave discussion, but the instant, white-hot, wild,
Wakened female of the species warring as for spouse and child.

Unprovoked and awful charges—even so the she-bear fights,
Speech that drips, corrodes, and poisons—even so the cobra bites,
Scientific vivisection of one nerve till it is raw
And the victim writhes in anguish—like the Jesuit with the squaw!

So it comes that Man, the coward, when he gathers to confer
With his fellow-braves in council, dare not leave a place for her
Where, at war with Life and Conscience, he uplifts his erring hands
To some God of Abstract Justice—which no woman understands.

And Man knows it! Knows, moreover, that the Woman that God gave him
Must command but may not govern—shall enthral but not enslave him.
And She knows, because She warns him, and Her instincts never fail,
That the Female of Her Species is more deadly than the Male.