segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Huertos místicos de la poeta uruguaya Marosa di Giorgio (1932-2004)




Los hongos nacen en silencio; algunos nacen en silencio;
otros, con un breve alarido, un leve trueno. Unos son
blancos, otros rosados, ése es gris y parece una paloma,
la estatua de una paloma; otros son dorados o morados.
Cada uno trae -y eso es lo terrible-- la inicial del muerto
de donde procede. Yo no me atrevo a devorarlos; esa carne
levísima es pariente nuestra.
Pero, aparece en la tarde el comprador de hongos y
empieza la siega. Mi madre da permiso. El elige como un
águila. Ese blanco como el azúcar, uno rosado, uno gris.
Mamá no se da cuenta de que vende a su raza.




Os cogumelos nascem em silêncio; alguns nascem em silêncio;
outros, com um breve alarido, um leve estrondo. Alguns são
brancos, outros rosados, esse é cinza e parece uma pomba,
a estátua de uma pomba; outros são dourados ou roxos.
Cada um traz - e isso é o mais terrível - a inicial do morto
de onde procede. Eu não me atrevo a devorá-los; essa carne
levíssima é parente nossa.
Mas 
de tarde aparece o comprador de cogumelos e
começa a colheita. Minha mãe dá permissão. Ele escolhe como uma
águia. Esse branco como o açúcar, outro rosado, outro cinza.
Mamãe não se dá conta de que vende a sua raça.




*



A veces, en el trecho de huerta que va desde el hogar
a la alcoba, se me aparecían los ángeles.
Alguno, quedaba allí de pie, en el aire, como un gallo
blanco - oh, su alarido-, como una llamarada de azucenas
blancas como la nieve o color rosa.
A veces, por los senderos de la huerta, algún ángel me
seguía casi rozándome; su sonrisa y su traje, cotidianos;
se parecía a algún pariente, a algún vecino (pero, aquel
plumaje gris, siniestro, cayéndole por la espalda
hasta los suelos...). Otros eran como mariposas negras
pintadas a la lámpara, a los techos, hasta que un día
se daban vuelta y les ardía el envés del ala, el pelo,
un número increíble.

Otros eran diminutos como moscas y violetas e iban
todo el día de aquí para allá y ésos no nos infundían miedo,
hasta les dejábamos un vasito de miel en el altar.




Às vezes, no trecho jardinado que vai da casa
até o chalé, me apareciam os anjos.
Um ficava ali de pé, no ar, como um galo
branco - oh, seu alarido - como uma labareda de açucenas
brancas como a neve ou cor de rosa.
Às vezes, pelos caminhos jardinados, algum anjo me
seguia quase 
em mim resvalando; seu sorriso e seu traje, cotidianos;
ele se parecia a algum parente, a algum vizinho (mas aquela
plumagem gris, sinistra, caindo-lhe pelas costas
até o chão...). Outros eram como mariposas pretas,
pintadas na lâmpada, nos tetos, até que um dia
se viravam e lhes queimava o avesso da asa, o cabelo,
um número incrível.
Outros eram minúsculos como moscas e violetas e iam
todo o dia de um lado para o outro e esses não nos davam medo,
até deixávamos para eles um copinho de mel no altar.



*


Ellos tenían siempre la cosecha más roja, la uva centelleante.
A veces, al mediodía, cuando el sol embriaga -si no, nunca
nos atreviéramos-, mi madre y yo, tomadas de la mano,
íbamos por los senderos de la huerta, hasta pasar la línea
casi invisible, hasta la vid de los monjes. La uva erguía
bien alto su farol de granos; cada grano era como un rubí
sin facetas con una centella dentro. Ellos estaban aquí y allá
con las sayas negras o rojas, y parecían escudriñar diminutas
estampillas, grandes láminas, o meditar profundamente sobre
el Santo de esos lugares. A nuestro rumor alguno dirigía
hasta nosotras la mirada como una flecha de oro o de plata.
Y nosotras huíamos sin volvernos, temblando bajo
el inmenso sol.



Eles sempre tinham a safra mais avermelhada, a uva cintilante
Às vezes, ao meio-dia, quando o sol embriaga - senão nunca
nos atreveríamos - minha mãe e eu, de mãos dadas,
íamos pelos caminhos da horta, até ultrapassar a linha
quase invisível, até a videira dos monges. A uva erguia
bem alto seu farol de bagos; cada bago era como um rubi
sem facetas com uma centelha dentro. Eles estavam aqui e ali
com suas batinas pretas ou vermelhas, e pareciam examinar minúsculos
selos, grandes folhas ou meditar profundamente sobre
o Santo desses lugares. Com o nosso barulho, algum dirigia
para nós o olhar como uma flecha de ouro ou de prata.
E nós fugíamos sem olhar para trás, tremendo sob
o imenso sol.




*


Domingo a la tarde, y voy por el huerto sin recordar cómo salí y llegué hasta acá. El cielo es de oro, deslumbrador, y de los naranjos caen frutas y flores.
Trepo a uno, según mi costumbre antigua. Estoy un rato. Los pájaros saltan de rama en rama. Desciendo. Subo. Tomo una fruta.
Al bajar, ya veo un cadáver. Vestido y tendido. Y más allá, otro. Y otro. Por todos lados, aparecen. Vestidos y tendidos.
Y cada uno con el hígado destrozado o el corazón. Pero ¿quiénes son? Acaso, no me percaté y hubo una rápida guerra?
En puntas de pie, voy hacia la casa; desolada paso el jardín de celedonias y “conejitos”. Adentro, no queda nadie. Voy a gritar; para qué, si nadie oye. Algunas mariposas chocan en los vidrios.
Sobre la mesa hay un álbum que no conocía; al entremirarlo, veo dibujada la batalla, los cadáveres y las plantas. En blanco y negro. Y en colores. La noche cae de súbito; las luces se encienden solas.
Y aparecen más cadáveres entre las plantas.



Domingo à tarde, e ando pelo pomar sem saber como saí e cheguei até aqui. O céu é de ouro, deslumbrante, e das laranjeiras caem frutas e flores.
Subo em uma, segundo meu costume antigo. Fico ali por um tempo. Os pássaros saltam de galho em galho. Desço. Subo. Apanho uma fruta.
Ao descer, vejo um cadáver. Vestido e estirado. E mais adiante, outro. E outro. Por todos os lados, aparecem. Vestidos e estirados.
E cada um com o fígado destruído ou um coração. Mas quem são eles? Talvez eu não tenha percebido e houve uma rápida guerra ?
Na ponta dos pés, vou em direção à casa; desolada, passo o jardim de erva-andorinha e bocas de lobo. Dentro, não há ninguém. Vou gritar; para que, se ninguém ouve. Algumas borboletas batem contra os vidros.
Sobre a mesa há um álbum que eu não conhecia; ao folheá-lo, vejo desenhada a batalha, os cadáveres e as plantas. Em preto e branco. E coloridos. A noite cai de repente; as luzes se acendem sozinhas.
E aparecem mais cadáveres entre as plantas.




Tradução_ Marcus Groza


*



Documentário sobre a obra e vida da poeta:


sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Húmus_ por Marcus Groza








Foto_ Marcus Groza












nasci onde a ordem é amadurecer as frutas em papel de pão velho


crianças adultos e aposentados de dois em dois dias cuidam


de girar uma a uma para que amadureçam por igual


e ainda insinuam que essa responsabilidade também é minha


sempre foi assim e livros tantas vezes rasurados assim ensinam


imagino as melancias que crescem sem aquela mancha de terra


são como corpos impedidos de formar a planta do pé


e onde hoje há sola e crosta teria brotado um outro nariz


ou um terceiro ouvido & então me pergunto se um dia


fosse preciso me esfregar nas tuas roupas até perderem o cheiro


qual nariz eu usaria: o da cabeça ou o logo abaixo do calcanhar?


e se alguma vez por força maior tu tivesses de escutar e discernir


entre o sussurro de um abalo sísmico e o cântico do inframundo


logo te jogarias ao chão enfiando a cabeça na terra ou tua escuta


se entregaria à indestrutível desobediência do que apodrece e germina?





quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Dois poemas do poeta coreano Choi Seung-Ho



Acima da Água e Debaixo d’Água

Enquanto os turistas atravessam o lago tranquilo

mergulhadores submergem até o fundo
para retirar o cadáver,
mas no fundo eles encontram um monte de lixo,
uma barriga inchada crescendo silenciosamente,
um monte gigantesco repleto de:
sapatos abandonados, vasilhas de plástico quebradas, pedaços de vinil,
todos chafurdando em lodo e água barrenta
onde fetos abandonados e larvas de gatos e cães jazem mutilados.
O monte se avoluma mais e mais
como aquele do cadáver.
Os mergulhadores observam caracóis de lagoa emburrados 
suas entranhas apodrecem, envenenadas pelas toxinas,
e a evidência de civilizações decadentes que se originaram perto da água,
decompondo-se pelo esgoto imundo excretado das tubulações

enquanto os turistas cruzam o lago tranquilo,
intoxicados pela beleza
das montanhas em volta e do hotel de luxo.

Traduzido do inglês por Marcus Groza


Above the Water, Under the Water

When the tourists cross the tranquil lake

divers plunge down to its bottom
to haul up the dead body,
but at a bottom they see a huge mound of waste,
a belly that’s bloated and silently growing bigger,
a giant waste mound filled with:
abandoned shoes, broken plastic containers, pieces of vinyl,
all wallowing in a muddy water and silt
in which the deserted fetuses and larvae of cats and dogs lie mangled.
The mound swells bigger and bigger
like that of a cadaver.
The divers observe sullen pond snails whose bowels rot, poisoned by toxins,
and the evidence of decaying civilizations that originated near the water,
rotting away from untreated sewage being excreted from pipes

while the tourists cross tranquil lake,
intoxicated by the beauty
of the surrounding mountains and resort hotel.

Translated from the Korean by Won-Chung Kim






A Cobra na Primavera

Uma serpente na primavera não deve ser odiada. Longe de ser repugnante, é de causar pena. Eu vi uma serpente fraca e abatida saindo de sua toca. E desejei que os sapos saíssem mais cedo da hibernação, para que ela pudesse se convencer de reunir forças. Se devo salvar a serpente ou poupar o sapo é o meu dilema pessoal. Às vezes, faço a serpente descomer o sapo pressionando a garganta dela com meu porrete, já outras vezes deixo que a cobra engula um sapo ou um rato do mato.

Diferente da cobra de outono, cujas escamas são brilhantes de veneno, a serpente na primavera é desprovida de vigor e se arrasta mais que desliza. Prostrada ao destino de nunca tirar a barriga do chão e à pesarosa busca por comida para sobreviver, a cobra da primavera se arrasta sozinha e apática ao longo de um campo pedregoso, inviável.

Traduzido do inglês por Marcus Groza


A Snake in Spring

A snake in the spring is not to be loathed. Far from loathsome, it is to be pitied instead. I watched a feeble, haggard snake coming out of its burrow. And I wished that the frogs would come out early from their hibernation so that the snake could be enticed to garner its strength. Whether I should save the snake or spare the frog is my own personal dilemma. At times, I’ll have the snake disgorge the frog by pressing its throat with my pole, and at others I simply let the snake be and allow it to swallow the frog or field mouse.

Unlike an autumn snake whose scales are glossy with venom, a snake in spring lacks vigor and slithers along lifelessly. Burdened by a fate to never lift its belly from a ground, and a sorrowful search for food to survive, the spring snake move listless and alone through a stony field with no path.

Translated from the Korean by Won-Chung Kim and James Han





terça-feira, 31 de julho de 2018

Dois poemas de Gabriel Cortilho




Autocriação


no contato
com a palavra,

não se alfabetiza
somente a escrita

para a leitura
do mundo

dá-se,
ao sujeito,
a possibilidade
de tecer

a singularidade
do próprio percurso:

ao descobrir as janelas
o corpo esquece os muros








Esquizoafetivo



escrevo, ambíguo, numa cidade deserta
transito entre cárceres, loucos, suicidas;
abrigo o manicômio da Agonia Perpétua
conheço a lágrima sulfúrica & depressiva

os psiquiatras não ouvem o grito da Alma
lançam química turva em cérebros aflitos
preocupam-se com as sinapses humanas
esquecem que nos habitam os labirintos,
velhos caminhos tortuosos para caminhar

sob o ocaso, ouço a sinfonia dos mortos:
somos feitos da mesma penúria secular








Gabriel Cortilho (1992- ) é poeta, professor de História e mestrando em educação. Escreve mensalmente em seu blog de poesia no Jornal GGN e na plataforma literária Liberoamérica. Tem poemas divulgados pelas revistas Gueto; O Poema do Poeta; Mallarmargens; Ruído Manifesto; Escrita 47 (Guatá- Cultura em Movimento) e organiza seus escritos no formato de livretos, sendo eles: Atemporal/Cronológico (2014), Transitório (2015), A Transa dos Besouros Verdes (2016), O Poema e a Cachaça (2017), Javali Radioativo (2017), A Carne e o Licor de Moscas (2017), Os Fios Esquecidos Pelos Olhos (2017), O Poema Entre as Ruínas(2018).

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Selfies tiradas dentro de um Sonho - tadeu renato

Notas sobre o Rosto






Não vejo meu rosto em sonhos; nem sequer em um reflexo. Sou sempre, como na vigília, aquele que que está por trás do rosto. E, no entanto, sou também meu rosto. O rosto é um lugar utópico com o qual me apresento ao mundo, mas do qual não tenho conhecimento. 





O espelho só mostra o que eu procuro perceber. Um retrato é sempre registro do que fui anteriormente, nunca minha expressão presente.








Um rosto é um sistema muro branco – buraco negro, um projeto de identidade que se impõe sobre nossa face. Este É você, diz o rosto social. Se o homem tem um destino, esse será mais o de escapar ao rosto, desfazer o rosto e as rostificações, tornar-se imperceptível, tornar-se clandestino (Deleuze/ Guatarri).








Desconfigurar o rosto é tentativa de escape de tudo que previamente nos mascara com definições. 







Maquiar, plastificar, des-cara-cterizar: 
um rosto é um escândalo (Bataille).








Essas selfies são em construção, como só poderia ser um rosto em fuga, um rosto que escapa por meio das imagens de um “inconsciente-tecnológico.”






Expor estes anti-retratos é busca de suportes diferentes: impresso, projetado, virtualizado, colocado de pé em um objeto tridimensional.

Em que outros corpos cabem tais rostos?













Tadeu Renato é poeta, dramaturgo e outras coisas. Publicou poemas em LETRAS PARA MELODIAS CORPORAIS e dramaturgia em lenz, um outro (ambos pela Edições de Risco). Partilha textos em varandeando.blogspot.com e experiências visuais no Instagram @tadeu_renato.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Ateu-Místico: Quatro poemas de Teofilo Tostes Danel



Espaço público


Dia a dia, são diásporas
que transmutam as entranhas
das cidades. Megalópoles
erigem distâncias tantas,
fundam tribos sem contato
e sem qualquer vizinhança.

A carne da multidão
se esvai em sangue no cinza
asfalto, donde não rompem
quaisquer flores improváveis.
Célere, transita a vida
sem chegar a não-lugares.

Faustos, beatos, pactários,
faunos, putas, cramulhões,
rábulas, cegos, senhores,
indigentes e doutores:
os frágeis pés dessas gentes
acumulam pó das ruas.

Os pés passam desfilando
o transitório das gentes
sobre o pó de todo espaço.
Público. Local de encontro,
concerto ou desacerto
de almas sempre sozinhas




              Corpo cerzido








Trago nas mãos
o cheiro escuro e acre
de um medo
que comecei a adquirir

antes mesmo da linguagem.

O medo recende a carne crua,
a gordas gosmas de vísceras
cortadas pelo fio fino, frio e preciso

de um bisturi.

Ouço o fio de voz
sussurrado pelas sete cicatrizes
espalhadas em meu corpo.
A sensibilidade mais aguda
sob a pele fechada dessas feridas
testemunha o medo

da morte.

Morte não havida,
dessas que pesam

e aliviam.

Em meu corpo cerzido,
um corte cerrado
na planta do pé direito
e outro no tornozelo
testemunham esses milagres que são

meus passos.

Entre a linha imaginária da cintura
e a da base da pélvis
há tanta marca,
tanta agenesíase,
que do intacto períneo,

de onde imagino irradiar –

vértebra
a
vértebra –

a alquebrada kundalini,

jorram as palavras
e a própria força

da voz.






           Se eu acreditasse num deus







se eu acreditasse
num deus

não seria no seu

que se vinga para sempre
da ignorância
e da fragilidade humanas

que demanda louvores uníssonos
ou destina quarenta virgens
para serem eternamente
estupradas por assassinos
que explodem pessoas aleatórias
e o próprio templo-corpo
em nome da pureza da fé

que é menos capaz
de acolher o múltiplo e o diverso
do que a própria humanidade

que não ri condescendente
das estranhezas do comportamento humano
como pais riem
dos pensamentos pueris
de seus filhos pequenos

se eu fosse tocado pela graça
de crer em alguma coisa para além
da agnosia
minha divindade seria

mais mãe do que pai
mais Gaia do que Yahweh
mais terra do que céu
mais água do que fogo
mais fecundidade do que ascese
mais mística do que dogma
mais andrógina do que máscula

mais amor

do que o amor condicional
dos deuses
em que jamais fui capaz de crer





Canção profética
(Para Fabiana Turci)

O vento sopra e espalha meus cheiros
Danço no rastro de uma melodia
Giro-me na gira dos dervixes
Penso com o tambor do peito
Digo a melodia do desejo
Ajo onde os olhos põem minhas mãos
Invento o tempo na casca oca e úmida de uma árvore
A umidade e o tempo enrugam minha pele
Ainda que a luz me falte, me restará a voz e minha possibilidade de cantar
Chamo um novo dia na chama da vela, que quase ilumina minha noite
Evoco ancestralidades e tempestades
Toco meu terreiro com pés e mãos nus
Piso o chão sagrado com o inteiro do corpo
Diluo-me em águas e pântanos
O Pentecostes é minha língua de fogo sobre a tua pele
Eu me perfumo com o cheiro agridoce de tuas virilhas
Uma canção profética já me anunciava
Pelo amor me alinho ao cosmo de palavras e sons
Eu te busco em meus pensamentos, palavras e atos
E assim tu estás comigo


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