viernes, 26 de agosto de 2016

Lançamento do livro "Meu olho não puxado puxou o lado errado." de Yassu Noguchi



LANÇAMENTO

 Meu olho não puxado puxou o lado errado de Yassu Noguchi

5 de Setembro, segunda-feira, 
às 19h 
Anexo Lounge Bar - Rua do Rezende, 52, Lapa (Rio)







[três poemas do livro:]



                  a cada dia
                  enxergo menos (miopia)
                  e no mesmo a cada dia
                  enxergo longe (utopia) 





                                                                     agora, quando perguntarem minha religião
                                                                     vou dizer:
                                                                     sou poeta




                                       a potência
                                       de uma coisa
                                       está na beleza
                                       da mesma
                                       encontrar
                                       sua sutileza





Yassu Noguchi é produtora cultural, poeta, contista e palindromista. Tem textos publicados nas coletâneas Desnamorados (Empíreo/2014); Clube da Leitura – Volume III  (Oito e Meio/2015); Rio 2065  (Casa da Palavra/2016/organização da FLUPP); e em  ESCRIPTONITA: mitologia-remix & super-heróis de gibi, que será lançada em breve pela Patuá. Lançará em setembro de 2016 seu primeiro livro, Meu olho não puxado puxou o lado errado, de poemas curtos, pela enCaderno.


+ Yassu em:


lunes, 22 de agosto de 2016

três poemas inéditos de Dirceu Villa


le diable jaune, por julia bicalho mendes



ontem

as pessoas de ontem nunca nasceram,
nunca é dia ontem : ontem é uma vala,
um depósito, armazém de ferragens :
as pessoas de ontem comem sorrindo
um sorriso de animais com dor : ontem
tem a indigestão de fotos, de famílias,
de amarelo e de amassado : ontem 
jamais foi o passado, ontem houve
como um sonho contado em pesadelo
e as pessoas de ontem viajam à noite
na mais densa neblina, todas surdas
aos nossos gritos : ontem é um abismo
onde pés deslizam e os rostos vão
cobertos de uma cal de cegar ao sol.
quem quer ontem hoje? e quem será
amanhã senão perdido no limiar do não?

                                       



                                                               a engenharia de eva

                                                                                      todos os rostos terminam em ossos
                                                                                      exôdo em massa, os seus olhos
                                                                                      batalha de flores, o sopro nos lábios
                                                                                      mármore e sol, pedra fundamental

                                                                                      seixos, se apertam; suaves, se duros
                                                                                      sombra de pêra, fluida luz de laranjas
                                                                                      término, régua de curvas do leite
                                                                                      seqüestro, os sentidos; sala e silêncio
                                                                                      todos, seus; um, dois, todos: perdidos.






chute no traseiro

cansado de pisar e de ser pisoteado
em meio às minhas aventuras
tive certa noite um pesadelo
pra acabar de vez com essas frescuras

era amor que me chutava no traseiro
rindo e apontando o meu tinteiro;
aguento flecha, choro, rilhar de dentes
mas isso eu te digo: não há quem aguente

“amor, filho da puta, que diabos?”
e o moleque nem aí, limpando as unhas
e o espaço entre os dentes

e com olhar pênsil de fodaz enfado
“não me amola, que bocejo,
vocês humanos vendem a alma por um beijo”. 







Dirceu Villa (São Paulo, 1975). Poeta, tradutor e ensaísta. Publicou os livros de poemas MCMXCVIII (1998), Descort (2003), Icterofagia (2008) e Transformador, poemas: 1998-2013 (2014). É tradutor de Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (2009) e de Lustra, de Ezra Pound (2011). 


+ Dirceu Villa nos links: 

-  O Demônio Amarelo
modo de usar & co. 
escamandro 
enfermaria 6

martes, 2 de agosto de 2016

lunes, 18 de julio de 2016

Poema inédito do livro “As solas dos pés de meu avô”, de Tiago D. Oliveira


um

Atrás de mim, porém, numa rajada fria,
escuto o chocalhar dos ossos,
e um riso ressequido tangencia o rio
(T. S. Eliot)

é pelos pés de meu avô que entendo a vida
morto de cima de nove décadas esculpidas nas rachaduras
das solas duras naquele mesmo quarto de estreitos e sonhos
caminho nos cascos a figurar seu povo
na herança do sangue no olho
que o eco de sua voz ainda vive
é pelos pés do morto numa cama de pau
que vejo a luz do dia chegar
e o choro e a reza e a morrinha de paz que fica
meu pai chegou à capital menino de domingo a domingo
perdeu o que hoje não consegue mais lembrar
veio para tentar a vida e ficou: foram as primeiras frases
que li naquelas solas duras de pés juntos como os de quem reza
era o título de um texto que continuava – depois fui eu a partir para Lisboa
em busca da manilha e o libambo que idealizei
ecos em silêncio vindos de outra existência idas de 1800 ou não
ou de um call center atendendo às ligações e sendo mandando de volta
a cada três minutos recebendo ecos de outras partidas
quando meu pai veio para a capital tinha a metade de mim
a outra descobri quando retornei de Portugal
há mais ou menos quarenta anos ele chegava
após quatro eu voltei para o Brasil
as rachaduras nas solas duras de meu avô
escreveram estas palavras também
até chegar ao rio passamos por três cobras
não sabemos de onde é que o veneno espreita
tomam conta da estrada conhecem o caminho
provocam o medo e o desejo na fronte
a última vez que estive com o meu avô
cruzamos com as cobras e nos banhamos no rio:
esta poderia ser a epígrafe para qualquer sertanejo







Tiago D. Oliveira, de Salvador-BA, professor e pesquisador, estudou letras na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e na Universidade Nova de Lisboa (UNL). Tem poemas publicados em portais, revistas e jornais especializados como Cultverso, Cronópios, Hyperion (UFBA), Escamandro, Enfermaria 6 (Portugal), Subversa, Avenida Sul e Jornal Livre Opinião. Em 2014 teve seu primeiro livro editado de poesia, “Distraído”. Atualmente desenvolve pesquisas sobre a ética dos afetos em formas breves na literatura portuguesa.

jueves, 14 de julio de 2016

A Caminho de Axël - Lucas Perito


Que ele possa continuar a vencer 
Tiamat e abreviar seus dias”



Bem escuro no fundo da noite sem fim
Começo narrando
Às margens do tempo
Um navio por casa
E uma tartaruga ao lado
Entre altas marés
E aves submersas
Este é o lugar dos relógios quebrados
Dos homens de areia
Da fome dos náufragos
Dos livros de cabeceira
Do acúmulo das coisas
Enterradas em um deserto.
Edificam-se os passos perdidos,
Incertos, caminho ao largo da ilha
Assumo a proa
Junto as palavras, faço o elo
Detenham-me, sou tão belo”!

Era julho,
Não participou das alegrias de férias
Liderou uma turba de mortos
Sobre o azul do abismo
Mas o corpo não despertou

Do fundo da noite sem fim.




Lucas Perito nasceu em São Paulo em 1985. É graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Trabalhou na editora Empresa das Artes, escrevendo livros ligados a história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico “Caminhos da Mantiqueira” (2011) de Galileu Garcia Junior. Tem alguns poemas publicados na Revista Zunái, Diversos Afins Benfazeja, na R. Nott Magazine, Caderno-Revista 7 Faces, Revista Parênteses e Revista Entreverbo. Também participou como tradutor na Revista Parênteses.

viernes, 8 de julio de 2016

LETRAS PARA MELODIAS CORPORAIS, de Tadeu Renato (Financiamento Coletivo)



Tadeu Renato, escritor, dramaturgo e um dos editores da Revista Saúva,
 está fazendo campanha de financiamento coletivo para a publicação do livro-objeto:
LETRAS PARA MELODIAS CORPORAIS:














miércoles, 6 de julio de 2016

LE-N-GUAS: Versos em portunhol por Andrea Carolina Yinah



No princípio era porto e virou precipício na queda punhal.

Me di cuenta que la miel de las abejas sostiene mis presas afiladas sin prisa.

Por que arrancar as ervas daninhas em cada breu de esquina?

Le hago un cariño a mis pies vencidos, para que ganen algo distinto.

Pela fresta da janela um lampejo de libélulas em gozo.

Porque me tienen aquí amordazada con rosas blancas?

Corto meus pés no rio – ainda tenho mãos.

En el aire visto mis manos con cenizas aveludadas.

Queria poder ecoar meu grito em cada cavidade do teu corpo.

Uivos que saltan como niños jugando.

De que me servem os pés quando desaparece a estrada?

De mi espalda salen alas de acero para rasgar.

Cansei dos cogumelos.

Me di cuenta que nada pasa en la tierra si el agua no sale del suelo.

Derramo no fundo da garganta a solução.

Con la sal limpio heridas antiguas que se inflamaron en nódulos.

Decapitada ou degolada por mim mesma sempre fui.

Declaro mi Alma aprisionada Libre.

Desfaço as tranças de sangue que a mulher violentada usou na festa.

El tiempo es como la mujer-luna que cambia cambia cambia.






Andrea Carolina Yinah, filha de chilenos radicados no Brasil, é fisioterapeuta de formação e atua como terapeuta vibracional e holística (acupuntura, reike, cromoterapia etc), além de se aventurar em projetos como "Corpo-Clown" em que alinha conhecimentos holísticos a jogos teatrais para crianças e adolescentes.

lunes, 4 de julio de 2016

DIGERINDO A FLIP (1)



No mais:

Tudo se transforma depois de Leonardo Fróes. Que brilha os olhos dizendo estar feliz por receber tanto carinho sendo ele, em suas próprias palavras, um “homem da roça”, no meio de “tanta celebridade”.  Sorrio. Sabendo  muito bem usar as aspas nos devidos lugares.

No dia seguinte da sua mesa os jornais anunciaramm coisas como “REDESCOBERTA NA FLIP”, “LEONARDO SAI DA TOCA”, “POEMAS SOBRE BICHOS E PLANTAS”, “POETA RECLUSO”. Por um lado fico feliz com a merecida e atrasada repercussão sobre a obra e a pessoa de Leonardo Fróes, que foi altamente ovacionado na FLIP, acreditando que foi a coisa mais bela, bela y bela que aconteceu em todos esses cinco dias e quiçá nestes 14 anos de festa, e sigo celebrando a experiência emocionante, creio até para os olhos mais rasos, de vê-lo tão vivo e verdadeiro neste lugar.

Por outro lado me pergunto se essas pessoas que assinaram esses artigos assistiram a mesma mesa que eu?

“POEMAS SOBRE BICHOS E PLANTAS”-  será que podemos reduzir o trabalho do poeta desta forma? Fróes diz tratar com a experiência, que a escolha pela natureza em sua poesia não é proposital mas acontece porque é o que ele fatalmente vivencia diariamente, e que poderia ser qualquer outra coisa. Seus poemas não descrevem, dissertam, revelam bichos y plantas – como fica parecendo nesta primeira sentença - pelo contrário, seus poemas são revelados pela experiência, invocam, penetram, mesclam-se nas relações humanas, na delicadeza-crueldade da vida, de um lugar de compreensão y atenção profunda com todas as formas de organismos, concretos ou abstratos. A natureza atua aqui potencialmente como vórtice de contato, como linguagem, que é a partir de onde acontece a relação do poeta com o mundo.

“POETA RECLUSO” / “LEONARDO SAI DA TOCA” - Deste jeito até parece que Fróes fez a opção por ser um homem inacessível para o mundo e que por esse motivo tenha de certa forma sido esquecido como poeta quando agora "de uma hora para outra" resolveu reaparecer. Será assim mesmo? Quem esteve presente no sábado de manhã teve o prazer de conhecer um dos homens mais disponíveis, generosos, amorosos, receptivos que a literatura brasileira já conheceu. Muito diferente de tantas “celebridades” que costumam ir a FLIP e que estão sempre por aí na mídia. O que eles chamam de reclusão no caso de Fróes, e na sua escolha de vida como “homem da roça”, para mim, não deveria ser interpretada como indisponibilidade ou confinamento e sim como um vasto desejo do poeta pela experiência, de encontrar a vida cara a cara, remanejando o caos e o lirismo com as próprias mãos, sem os intermediários, firulas e falseios habituais da sociedade.


“REDESCOBERTA NA FLIP” – onde é que estavam as pessoas nesse tempo todo?






Julia Bicalho Mendes

sábado, 25 de junio de 2016

Palavra-Cerzidura _ Um poema de Casé Lontra Marques



A memória respira nas pedras



A memória respira nas pedras
prorrogando
qualquer submersão — com uma calma involuntária —

outras
formas de escoamento
das
referências:

em raptos constantes — mas incontínuos —

hoje se expõem
à
descompressão

dos espantos (sedativos)

que
caminham

comigo:

nossos
recentes confinamentos
são
enfim irrecusáveis?

desperdício
é um modo de não esquecer

— instaurando — sopro a sopro:
um
denso envelhecimento;

perto
dos sons que nos cicatrizam:

como
receber essa água levada
ao
limiar de toda dor?

num
viveiro de vertigens:

os rangidos em regresso
às
disjunções

da idade gestacional comportam

uma
subsistência quase

rítmica

— entre as sobras
de
alguns segundos —

distribuir
desordenadamente os olhos;

dentro
da
areia:

distribuir
voluntariamente os poros;

letra
a
letra:

(agora
também observarei as mutações
da
catatonia?):

interrogando — de vão em vão —
um
tenso renascimento:

(agora
apenas conservarei as mutações
da
catatonia?):

enquanto algumas lacunas — mesmo relutantes —
percorrem
esses silêncios que nos somam

aos insumos

de
um solo

insurgente:

novos rastros da placenta
oscilam
em meio a outra desconcentração — ainda escuto —

antes
de consumir sua contingência?

aquelas últimas noites
logo
cedo recolheram os nomes que equilibramos

no
rosto adulterado

pela distensão

do
delírio

— onde finco um fôlego —

com a língua
inseminada nos espaços atingidos

por
uma insônia

solar:

alimentaremos
este
instante que cerca quase
toda
inundação

— emergindo de gestos elípticos —

sincronizarei
a
montagem dos ossos

em
múltiplas

faces:

até experimentar as primeiras sílabas
após
uma solidão ambígua:

interagir
com sintaxes quimicamente

reunidas

em
corpos prestes
a
desaparecer




Casé Lontra Marques nasceu em 1985, em Volta Redonda (RJ). Mora em Vitória (ES). Publicou Movo as mãos queimadas sob a água, Saber o sol do esquecimento e Mares inacabados, entre outros. Disponibiliza seus livros digitalmente em caselontramarques.blogspot.com.br.

jueves, 23 de junio de 2016

Dois poemas de Beatriz Rodder




O médico existe no laudo Semblantes nos fios do rosto Invento mãos dadas Não encontro pulso Troco pouso por ventos Prédios cardíacos Não durmo Em tédio Concordo dormir Acordo Giro o lápis pra quebrar Aponto muito de raiva Escrevo pouco A ponte se sente rio Não escolheu Servir de ida ao outro lado O pombo não encontra o prédio O rato encontra o mundo desiste do eixo Eu insisto no médico Me sento O lápis cobra palavras




       *    *   *
Não tem nome a fonte Já não tinha Agora sabemos que o aumento do volume de luz é resultado do silêncio do túnel Tenho um girassol chamado Jérôme Ele mora fora do túnel Eu moro dentro do girassol quando quero Não tem nome o amor agora sei que posso amarelar e florir ao mesmo tempo Tenho um vaso chamado nada Nele cabe eu a fonte o túnel a terra E Jérôme sendo luz





(Eu
Menos que mil
Só três
Eu-Deus-outro)