sexta-feira, 13 de julho de 2018

Selfies tiradas dentro de um Sonho - tadeu renato

Notas sobre o Rosto






Não vejo meu rosto em sonhos; nem sequer em um reflexo. Sou sempre, como na vigília, aquele que que está por trás do rosto. E, no entanto, sou também meu rosto. O rosto é um lugar utópico com o qual me apresento ao mundo, mas do qual não tenho conhecimento. 





O espelho só mostra o que eu procuro perceber. Um retrato é sempre registro do que fui anteriormente, nunca minha expressão presente.








Um rosto é um sistema muro branco – buraco negro, um projeto de identidade que se impõe sobre nossa face. Este É você, diz o rosto social. Se o homem tem um destino, esse será mais o de escapar ao rosto, desfazer o rosto e as rostificações, tornar-se imperceptível, tornar-se clandestino (Deleuze/ Guatarri).








Desconfigurar o rosto é tentativa de escape de tudo que previamente nos mascara com definições. 







Maquiar, plastificar, des-cara-cterizar: 
um rosto é um escândalo (Bataille).








Essas selfies são em construção, como só poderia ser um rosto em fuga, um rosto que escapa por meio das imagens de um “inconsciente-tecnológico.”






Expor estes anti-retratos é busca de suportes diferentes: impresso, projetado, virtualizado, colocado de pé em um objeto tridimensional.

Em que outros corpos cabem tais rostos?













Tadeu Renato é poeta, dramaturgo e outras coisas. Publicou poemas em LETRAS PARA MELODIAS CORPORAIS e dramaturgia em lenz, um outro (ambos pela Edições de Risco). Partilha textos em varandeando.blogspot.com e experiências visuais no Instagram @tadeu_renato.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Ateu-Místico: Quatro poemas de Teofilo Tostes Danel



Espaço público


Dia a dia, são diásporas
que transmutam as entranhas
das cidades. Megalópoles
erigem distâncias tantas,
fundam tribos sem contato
e sem qualquer vizinhança.

A carne da multidão
se esvai em sangue no cinza
asfalto, donde não rompem
quaisquer flores improváveis.
Célere, transita a vida
sem chegar a não-lugares.

Faustos, beatos, pactários,
faunos, putas, cramulhões,
rábulas, cegos, senhores,
indigentes e doutores:
os frágeis pés dessas gentes
acumulam pó das ruas.

Os pés passam desfilando
o transitório das gentes
sobre o pó de todo espaço.
Público. Local de encontro,
concerto ou desacerto
de almas sempre sozinhas




              Corpo cerzido







Trago nas mãos
o cheiro escuro e acre
de um medo
que comecei a adquirir

antes mesmo da linguagem.

O medo recende a carne crua,
a gordas gosmas de vísceras
cortadas pelo fio fino, frio e preciso

de um bisturi.

Ouço o fio de voz
sussurrado pelas sete cicatrizes
espalhadas em meu corpo.
A sensibilidade mais aguda
sob a pele fechada dessas feridas
testemunha o medo

da morte.

Morte não havida,
dessas que pesam

e aliviam.

Em meu corpo cerzido,
um corte cerrado
na planta do pé direito
e outro no tornozelo
testemunham esses milagres que são

meus passos.

Entre a linha imaginária da cintura
e a da base da pélvis
há tanta marca,
tanta agenesíase,
que do intacto períneo,

de onde imagino irradiar –

vértebra
a
vértebra –

a alquebrada kundalini,

jorram as palavras
e a própria força

da voz.






           Se eu acreditasse num deus






se eu acreditasse
num deus

não seria no seu

que se vinga para sempre
da ignorância
e da fragilidade humanas

que demanda louvores uníssonos
ou destina quarenta virgens
para serem eternamente
estupradas por assassinos
que explodem pessoas aleatórias
e o próprio templo-corpo
em nome da pureza da fé

que é menos capaz
de acolher o múltiplo e o diverso
do que a própria humanidade

que não ri condescendente
das estranhezas do comportamento humano
como pais riem
dos pensamentos pueris
de seus filhos pequenos

se eu fosse tocado pela graça
de crer em alguma coisa para além
da agnosia
minha divindade seria

mais mãe do que pai
mais Gaia do que Yahweh
mais terra do que céu
mais água do que fogo
mais fecundidade do que ascese
mais mística do que dogma
mais andrógina do que máscula

mais amor

do que o amor condicional
dos deuses
em que jamais fui capaz de crer





Canção profética
(Para Fabiana Turci)

O vento sopra e espalha meus cheiros
Danço no rastro de uma melodia
Giro-me na gira dos dervixes
Penso com o tambor do peito
Digo a melodia do desejo
Ajo onde os olhos põem minhas mãos
Invento o tempo na casca oca e úmida de uma árvore
A umidade e o tempo enrugam minha pele
Ainda que a luz me falte, me restará a voz e minha possibilidade de cantar
Chamo um novo dia na chama da vela, que quase ilumina minha noite
Evoco ancestralidades e tempestades
Toco meu terreiro com pés e mãos nus
Piso o chão sagrado com o inteiro do corpo
Diluo-me em águas e pântanos
O Pentecostes é minha língua de fogo sobre a tua pele
Eu me perfumo com o cheiro agridoce de tuas virilhas
Uma canção profética já me anunciava
Pelo amor me alinho ao cosmo de palavras e sons
Eu te busco em meus pensamentos, palavras e atos
E assim tu estás comigo

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Três poemas de Nicanor Parra








Declaración de princípios

Me declaro católico ferviente
no comulgo con ruedas de carreta

me declaro discípulo de Marx
eso sí que me niego a arrodillarme

capitalista soy de nacimiento
loco por las perdices escabechadas

me declaro discípulo de Hitler
eso sí que rechazo las imitaciones

soy un agente clandestino soviético
no me confundan eso no con el Kremlin

en resumidas cuentas
................................... me declaro fanático total
eso sí que não me identifico con nada

la palavra Dios es una interjección
da lo mismo que exista o que no exista




Declaração de Princípios


Me declaro católico fervoroso
não comungo com rodas de charrete

me declaro discípulo de Marx
isso sim pois me nego a me ajoelhar

capitalista sou de nascença
louco por perdizes desossadas

me declaro discípulo de Hitler
isso sim pois recuso as imitações

sou um agente clandestino soviético
não me confundam isso não com Kremlin

no final das contas
.............................  me declaro fanático total
isso sim pois não me identifico com nada

a palavra Deus é uma interjeição
dá no mesmo que exista ou não exista






Como dice Marcuse

los estudiantes andan con el paso cambiado
hoy desvian un avión hacia Cuba
mañana asaltan un supermercado
- so pretexto de reunir fondos para la causa -
passado mañana secuestran un diplomático
¡por qué não secuestran a la puta que los parió!

no se puede negar que por el momento dominan el escenário

pero la astucia vencerá a la fuerza
porque como les venía diciendo
los ancianos decrépitos férreamente unidos
haremos ver elefantes azules a los señores jóvenes iconoclastas.



Como disse Marcuse

os estudantes andam muito mudados
hoje desviam um avião para Cuba
amanhã assaltam um supermercado
- sob pretexto de reunir fundos para a causa -
depois de amanhã sequestram um diplomata
por que não sequestram a puta que os pariu!?

não se pode negar que por enquanto dominam a cena

mas a astúcia vencerá a força
porque como vinha lhes dizendo
os velhos decrépitos ferrenhamente unidos
faremos ver elefantes azuis aos senhores jovens iconoclastas







No creo en la vía pacífica

no creo en la vía violenta
me gustaría creer
en algo - pero no creo
creer es creer en Dios
lo único que yo hago
es encogerme de hombros
perdónenme la franqueza
no creo ni en la Vía Láctea



Não creio na via pacífica

não creio na via violenta
gostaria de creer
em algo - mas não creio
crer é crer em Deus
o único que faço
é dar de ombros
me perdoem a franqueza
não creio nem na Via Láctea


Tradução_ Marcus Groza 

domingo, 10 de junho de 2018

Poemas curtos de Charles Lima



Divisória 



O que separava o quarto era a cortina de fita colorida.

Também a lei, no olhar da mãe.

Na cozinha o cheiro, a cadela que roçava nossas pernas, os toucinhos dependurados, a piscadela da prima visita.

Debaixo da mangueira,

Transgredíamo-nos.





Amor Resíduo (via Tietê)



No fundo falso de alguma dessas bolsas (que somadas são muitas)

Deve haver uma foto nossa embolorada

Manchada

Emoldurada de fungos.






Desejo Atlântida




Livre do escafandro adentrei o seu mar em pele

Submergi

O fôlego

A profundidade

De onde via superfície



Agora aguardo a próxima imersão no silêncio das pedras






Prenúncio

O alarido das cigarras


Desperta

Menino que espia

Canto e silêncio

Céu que trovoa





Charles Lima é escritor, músico e professor. Autor do livro de contos "Mundo da Vida" (2014), transita entre as sensibilidades artísticas e tem na música e na literatura suas principais influencias. É graduado em História e Mestre em Planejamento Urbano e Regional. É de signo terra e tem ar como ascendente, aprecia sabores amargos e sonha com palavras.





sexta-feira, 6 de abril de 2018

Odes provisórias, de Mario Benedetti





Ode à Pacificação

Não sei até onde vão os pacificadores com seu ruído metálico de paz
mas há certos corretores de seguros que já assinam apólices contra a pacificação
e há aqueles que reclamam a pena de morte para os que não querem ser pacificados
quando os pacificadores miram por certo só atiram para pacificar
às vezes até pacificam dois coelhos com uma cajadada só
é claro que há sempre um tolo que se recusa a ser pacificado pelas costas
ou algum estúpido que resiste à pacificação na surdina
somos realmente um país muito peculiar
que quem pacificar os pacificadores um bom pacificador será




Oda a la pacificación

No sé hasta dónde irán los pacificadores con su ruido metálico de paz
pero hay ciertos corredores de seguros que ya colocan pólizas contra la pacificación
y hay quienes reclaman la pena del garrote para los que no quieren ser pacificados
cuando los pacificadores apuntan por supuesto tiran a pacificar
y a veces hasta pacifican dos pájaros de un tiro
es claro que siempre hay algún necio que se niega a ser pacificado por la espalda
o algún estúpido que resiste la pacificación a fuego lento
en realidad somos un país tan peculiar
que quien pacifique a los pacificadores un buen pacificador será.




Ode à mordaça


Não creio em ti
mordaça
mas vou dizer
por que não creio

já vês
agora não digo
não hoje
nem aí

e entretanto
igualmente destampo o verbo
respiro o grito
e armo a blasfêmia

penso
logo insisto

faço inventário
do teu alegre palpite da miséria
de tua crueldade sem muitas ilusões
de tua ira ilustrada
de teu medo
porque mordaça
tu
és muitíssimo mais que um trapo sujo
é a mão trêmula que te ajuda
é o dono flamejante dessa mão
e até o dono canalha do teu dono

porque mordaça
és muitíssimo mais do que um trapo sujo
com gosto de boca livre e palavrão
és a lei malfeitora do sistema
és a flor moribunda da infâmia

penso
logo insisto

sob tua custódia meus lábios estão apertados
como meus incisivos
caninos
e molares
como minha língua
como meu discurso
em compensação não minha garganta

em minha garganta começo
de imediato 
a ser livre
às vezes engulo a saliva amarga
mas não engulo meu rancor sagrado

mordaça bárbara
mordaça ingênua
acreditas que não vou falar
mas falo sim
simplesmente por ser
e por estar

penso
logo insisto

que me importa calar
se falamos todos
por toda parte as paredes
e por todos os signos
que me importa calar

se já sabes
obscura
que me importa calar
se já sabes
mordaça
que vou te chamar
porcaria!




Oda a la mordaza

No creo en vos
mordaza
pero voy a decirte
por qué no creo

ya ves
ahora no digo
no hoy
ni ay

y sin embargo
igual destapo el verbo
respiro el grito
y armo la blasfemia

pienso
luego insisto

hago inventario
de tu alegre pálpito de la miseria
de tu crueldad sin muchas ilusiones
de tu ira lustrada
de tu miedo
porque mordaza
vos
sos muchísimo más que un trapo sucio
sos la mano tembleque que te ayuda
sos el dueño flamante de esa mano
y hasta el dueño canalla de tu dueño

porque mordaza
sos muchisimo más que un trapo sucio
con gusto a boca libre y a puteada
sos la ley malviviente del sistema
sos la flor bienmuriente de la infamia

pienso
luego insisto

a tu custodia quedan mis labios apretados
quedan mis incisivos
colmillos
y molares
queda mi lengua
queda mi discurso
pero no queda en cambio mi garganta

en mi garganta empiezo
por lo pronto
a ser libre
a veces trago la saliva amarga
pero no trago mi rencor sagrado

mordaza bárbara
mordaza ingenua
crees que no voy a hablar
pero sí hablo
solamente con ser
y con estar

pienso
luego insisto

qué me importa callar
si hablamos todos
por todas partes las paredes
y por todos los signos
qué me importa callar
si ya sabés
oscura
qué me importa callar
si ya sabés
mordaza
lo que voy a decirte
porquería.






Ode ao apagão


Agora sim que é noite
e tenebrosa
te lembras de quando a corja impunha
uma só confiança por ambiente
e poucas velas

o apagão é grande
e extenso

agora sim que é noite
e à noite todos as leis são pardas
a liberdade está como boca de lobo
da justiça não se vê nem as mãos

o apagão é grande
e extenso

me empresta teu vagalume do povo
sua palpitação sem sombra
seu lumiar inesgotável
veja se estamos todos
como cães de guarda
e depois o apague
o apague e depois
pensemos ou ruminemos ou
sonhemos de olhos bem abertos
até que chegue
inexorável 
o dia.




Oda al apagon



Ahora sí que es de noche
y tenebrosa

te acordás cuando el bando reclamaba
una sola confianza por ambiente
y de pocas bujías

el apagón es grandey extendido

ahora sí que es de noche
y de noche todas las leyes son pardas
la libertad está como boca de lobo
la justicia no se ve ni las manos

el apagón es grande
y extendido

prestame tu luciérnaga de pueblo
su latido sin sombra
su foco inagotable
mirá si estamos todos
como perros guardianes
y después apagala
apagala y después
pensemos o rumiemos o
soñemos con los ojos bien abiertos
hasta que llegue
inexorable
el día.




Tradução _ Marcus Groza 

sábado, 17 de fevereiro de 2018

A CRIANÇA-PALITO QUE EVITA ABSTRAÇÕES, por Natalia Lemos


A CRIANÇA-PALITO QUE EVITA ABSTRAÇÕES faz parte de uma série do PROJETO RABISCO intitulada TERROR CRU. A proposta surgiu a partir de uma inquietação diante da construção do ser social nas “brincadeiras clássicas” infantis.  


Técnica: Caneta esferográfica sobre papel canson.



 (...)



(...)





(...)






Natalia Lemos, 33, nasceu e vive em São Paulo. É artista e educadora. Desde 2011 é coordenadora do atelier e professora de Artes plásticas do Ensino Fundamental 2 e Ensino Médio do Colégio Marupiara. Em 2013 criou o espaço criativo Projeto Rabisco, onde produz objetos artísticos com uma poética própria, que propõem experiências de “dezautomatização”.






sábado, 14 de outubro de 2017

Narrativa e Poema, de Leo Mandi



A Bailarina do Vulcão Invertido


Sou frio meu suor serve
para bailarina patinar no gelo.
Enquanto sou duro
o imenso pátio congelado
sou sem camisa e sem osso
o mar glacial ártico.

A bailarina tem o fogo
para trincar meu peso
para emergir minhas águas.
Quando ela sua 
e concentra o fogo
em minha direção.

Do vão de suas pernas
ela manda fogo para baixo.
quebra meu lago de vidro
e cai de vulcão invertido
dentro de mim.






Tapete de Música Urbana


A garrafa de vodka vazia desce pela enxurrada, separação de corpo de rio produzida pela chuva no meio da cidade carregando inúmeras embarcações de lixo, caixas de suco, papéis e sua carta bem escrita.
O que acontece quando um trem passa e um ônibus cheio de passageiros é obrigado a parar!? E soa o gongo com batidas ininterruptas com a duração de quase meia hora?
O que passa na cabeça dos passageiros e o trem está passando e uma chuva despenca ao mesmo tempo. Num mormaço agonizante.
E dentro do ônibus todos os passageiros e inclusive os passageiros contratados estão sentados. E um homem que não é um passageiro contratado está de pé. Está escrito hortelã numa porta de vidro numa loja do outro lado da calçada.
A garrafa de vodka é semelhante a uma embarcação de vidro. A garrafa sobe e desce enquanto viaja nas ondas de esgoto cheias de mijo de rato e membros de baratas divididas.
A garrafa de repente encontra um lugar seco, uma porção seca, um pedaço de calçada que não foi atingido pela chuva e a garrafa fica ali estacionada, como se fosse a arca de noé depois do encerramento do dilúvio.
O velho Sabará, um senhor com problema mental que mora na rua, levanta-se do banco de concreto, atravessa a rua, quase sendo atropelado por um caminhão, pega a caravela de vidro e a coloca de novo na continuação da enxurrada.
A garrafa retoma seu caminho de água. Vazia e quase perdendo o rótulo azul, com um risco prata brilhante.
Um cachorro passa pela enxurrada, com os pelos pesando o dobro devido ao acúmulo de chuva no dorso.
O cachorro vai em direção ao navio de vidro e coloca suas patas dianteiras no gargalo da garrafa, afogando-a.
O Velho Sabará arregala os olhos ao ver a cena - a intervenção do animal sobre o casco de vidro.
Depois de alguns segundos, o Velho Sabará muda sua expressão para algo mais semelhante a alguém que está intrigado com o que vê.
A garrafa escapa das patas do cachorro e ergue o bico acima da água e continua descendo e subindo as ondinhas sujas dos asfalto produzidas pelo esgoto de centro.
O cachorro a persegue, ergue as patas e as lança no pescoço de vidro da garrafa outra vez. E fica com a garrafa embaixo de suas patas sendo asfixiada pela falta de oxigênio novamente. Dessa vez deixando-a embaixo d`agua mais tempo.
O velho Sabará atravessa a rua sem prestar atenção direito em uma motocicleta que surge em alta velocidade.






Leo Mandi é escritor e músico. Autor do livro "Minhoca de Chocolate" (2010), é integrante da banda Submarino Quântico (Ouça EP da Banda).



 |foto Melissa Rahal|

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

en español - dos poemas de Marcus Groza


Mostacilla de espasmos

borrachos en una terraza en Montevideo
tu desconocida
me dijiste que te gustaba amontonar
piedras calientes sobre los chakras

palpear la vastidad calcárea
con una glândula salival desregulada para más
lamer
con alfombras de agua
ex-cuerpo
miel sin membrana
tartamudez antipiedra

mostacilla de espasmos
lámina de apagar fogata
hasta cuando hemos conseguido
sincronizar músculos y nervios del rostro
reconstituir el habla
entonces pude
escucharla pronunciando
ceremoniosamente

ven conmigo
si non te recusas
a ver que toda caricia se atraviesa
de un rozar bruto
que todo amor es un oficio atroz de peritos desastrados
ven conmigo
se non te recusas
a ver que cosas como acupuntura
se han inventado por aquellos que conocen mil y una
tecnicas de apedreamiento




|  Máquina de Escrever encontrada nos destroços do "Atentado a la AMIA", 1994, Buenos Aires. Foto do autor |




Tres o cuatro cosas

pronuncio las sílabas de la palabra cráter
derramo silencio dentro
sin el engaño de que el silencio sea un trabajo de luto
el silencio puede ser prenuncio
la condena como un regalo que se encomienda a sí mismo
tu me preguntas si creo en la homeopatía
yo contesto que lo posible es ancho como un pecho de atleta
conoci
tres o cuatro cosas que alegan la alegría bruta que puede verter una emulsión
el luto sin embargo
es
este alboroto de vivos
este querer dejar rastro y mirada
esta chatarra atiborrada de reliquias
es el poema
mientras que
me pronuncio débil y vanidoso en los silencios de la palabra-enigma




 | Pixo Buenos Aires - 2015. Foto do autor |