terça-feira, 12 de maio de 2015

A Prova do Major Almeida



 Por José Petrola


Já estou há dois meses na estrada, procurando notícias do major Almeida em cada cidade por onde passo. Nem sei mais para onde essa estrada me leva. Mas não desisto enquanto não encontrar. Preciso contar a história.
Começou numa dessas festas de fim de ano na casa do meu pai, quando eu ainda era um moleque de dezesseis anos e vivia protegido pela mãe com todos os cuidados no marasmo de um bairro besta de classe média em São Paulo. Eu não sabia quem era o major Almeida, conhecia só o tio Carlos. Até que comentei que estava aprendendo artes marciais e ele me pediu para mostrar o que sabia: Se é bom mesmo, tenta me vencer!
Dei alguns golpes no tio, tomando cuidado para não machucar de verdade. Mas ele brigava com vontade e tive de rebater pegando pesado. Muito menor do que ele, não tinha força nem peso para ganhar uma luta daquele homem de quase dois metros e porte musculoso. Só que eu era esperto e sabia dar uma boa chave de braço. Carlos foi ao chão antes de perceber o que tinha acontecido. Um amigo dele que estava perto caiu na risada, gritando que caveira não apanha de moleque. Foi aí que eu descobri que tio Carlos era o major Almeida.
Até então, ele tinha sido apenas um parente distante e meio esquisito. Não sabia nem que era militar, e muito menos de elite. Mas daquele ano em frente, todas minhas férias foram na costa verde do Rio, na casa de praia do tio Carlos. Não, do major Almeida. Foi ele quem me ensinou a treinar corrida na areia. Falávamos sobre lutas e ele tentava me convencer a seguir a carreira militar. Dividimos uma cerveja e conversamos sobre mulheres, ele espantado com a minha timidez, minha falta de jeito com as garotas. Nunca antes eu tinha viajado para fora de São Paulo. Nunca antes eu tinha conhecido outros homens que conversassem comigo e não só para fazer gozações. Na escola, apanhava tanto que, contrariando a mãe, resolvi aprender a lutar. Para ficar mais grosso e me defender. E, com a ajuda do tio, treinei pesado e consegui subir até a faixa preta. Minhas férias passaram a ser sempre na casa de praia.
Corria na praia, praticava lutas, saía para beber, pegava o carro emprestado para andar perto do sítio. De olho nas meninas, passei a ir à praia sozinho, mesmo sabendo que, naquele local isolado, e numa temporada meio morna, não haveria muitas chances.
Foi nessa praia quase deserta que tentaram me assaltar. Nem lembro direito como aconteceu. Um sujeito alto, com os músculos muito definidos, veias quase saltando, muitas tatuagens, correntinha no pescoço e boné curvado demais para a frente, sem deixar ver as formas do rosto, correu em minha direção. Gente assim não se deve encarar. Veio em minha direção e meteu um soco. Respondi com um melhor. Eu não era tão forte. Mas sabia a técnica. Ninguém via a cena. O rapaz também deveria ter mais ou menos o meu nível como lutador. Foi jogo duro. Vi poucos braços tão fortes. Quase tive de baixar a guarda, mas aguentei e o derrubei com um chute. Então comecei para valer. Foi tão rápido que, quando percebi, ele já estava desacordado na areia, com a cabeça sangrando. Larguei e saí correndo, apavorado.
Contei tudo para o tio voltamos à praia para decidir o que fazer. Ele tinha uma solução que me deixava com mais medo ainda. Alguma coisa sobre um lugar pantanoso na baixada onde havia muitos jacarés. - Não sobra um osso para contar a história!
Nunca mais se viu o homem tatuado.
Quando voltamos do pântano, já não foi mais o tio Carlos que falou comigo, e sim o major Almeida. Ele me cumprimentou de um modo tão profissional, com a voz tão gelada, que parecia estar batendo continência sem as mãos: - Parabéns. Assim, sem o ponto de exclamação. – Conseguiu eliminar o Macaco na porrada.
Minha cara era uma interrogação. O major explicou: - Fui eu que paguei o Macaco para te bater. Essa era a prova. Sabia que o meu sobrinho era um homem. Tinha que ser dos meus!
Fiquei tão assustado que parecia não sentir mais o meu próprio corpo. Ele encostou a mão no meu ombro, de frente para mim, como se estivesse passando uma medalha.  – O Macaco não prestava. Esse cara era um marginal sem destino. Bandido, matador. Vai prestar conta pro diabo. Recuei.
Voltei a São Paulo no dia seguinte, sem me despedir de ninguém. Saí muito cedo do sítio e fui caminhando pela orla da praia, com mochila nas costas, até o ponto de ônibus mais próximo, quilômetros de distância. Fiquei dias sem dormir. Pensava que a polícia ia descobrir e me prender como assassino. Não fui mais para o sítio. Algum tempo depois, Almeida me ligou de novo, falando sobre uma oportunidade de carreira no exército. Respondi que ia pensar e não liguei mais.
Muita coisa aconteceu de lá para cá. Isto já é passado há quase dez anos. Nunca fui descoberto. Terminei o colégio, fiz uma faculdade de comunicação e larguei a luta. Comprei um carro e deixei de uma vez por todas a zona leste, o apartamento da minha mãe e o marasmo daquela vida. Foi assim que caí na estrada, com o pretexto de fazer matérias para jornais.
E em cada lugar que vou, pergunto se alguém sabe do coronel Almeida. Pergunto do coronel, porque tio Carlos não existe mais. Procurei no Rio, do centro até o Recreio, rodei também Niterói e São Gonçalo, mas não tive informação nenhuma. Em Angra dos Reis, soube que ele estaria em Petrópolis, e lá me disseram para procurar mais ao norte. Subi para o Espírito Santo e Bahia, fui conhecer o nordeste. Rodei por cidades que nem no mapa existem, são apenas nomes que anoto num caderno. Guaiú, Irecê, Xique-Xique, Ipaumirim, Crateús, Gilbués. Encontrei um primo distante no Tocantins que tinha conhecido o coronel Almeida pouco tempo atrás e me disse que ele teria se transferido para a Amazônia em busca de dinheiro e comprado terras de dono indefinido. Acabo de sair de Araguaína, na direção do Pará. Não sei se meu carro aguentará as estradas da selva, mas isto não me impede de seguir em frente. Mas preciso encontrar o tio Carlos. Tenho de matar o coronel Almeida.


José Petrola é jornalista e escritor. Nasceu em São Paulo, mas vive no Rio de Janeiro, desde 2012. É Mestre em Comunicação e graduado em Jornalismo pela USP. Desenvolveu pesquisas acadêmicas sobre jornalismo, teatro e censura e já trabalhou no jornal Folha de S.Paulo. Atualmente concilia a comunicação com a literatura.


Um comentário:

Luciano Abe disse...

Excelente conto! Sensacional! Parabéns! :-D