sábado, 16 de maio de 2015

A Vingança e Noite Cabotina, de Alexandre Rosa



A Vingança
“Minha vingança sará maligna.”
Beto Carneiro, o vampiro brasileiro
— Lembra Magrão, daquela época brava de Bixiga?
            — Porra Sinval, se lembro meu, época sem precedentes eim...
            — Quanto de vida nossa será que ficou lá?
            — Vixe Maria meu, acho que uma década eu devo ter enterrado lá eim...
            — E agora a gente aqui no Habib’s tomando esse chope aguado.
            — Pelo menos se toma dois pelo preço de um né...
* * *
            Esses encontros com o Sinval já tavam me torrando um pouco, pra falar a verdade. No começo até que foi legal. Rememorar é sempre legal. Mas tava a fim de cortar um pouco. O foda é minhas brechas e naquelas de não saber dizer não vai se aceitando um monte.
            Toda sexta o pilantra mandava um torpa:
            lembra dakela q vc bikô uns funça lá na Bela Vista?
Como não lembrar, meu. A Silvana, acho, ganhou alguma coisa. Era Sinval mandá o torpa e minha cabaça girá. Daí pra frente o rendimento ó: bao bao.
            Por que? Por que eu ficava rememorando o acontecido. Ria. E ainda faltando três horas pro fim da ripa. Sabe como eu sei que a Silvana ganhou? Ela disse: “essas mensagens que você recebe eim...” quando entreguei aquela Planilha toda errada.
            O Sinval tem o dom.
            Isso ocorre entre pessoas que se tornaram cúmplices num determinado momento de suas vidas. Na experiência de cumplicidade alguns fatos circunstanciais tornam-se tipo de uns marcos na linha da vida e tal.
            E quando sabemos que é um marco e não uma historinha à toa? Ora, quando vamos contar determinadas histórias que nos são muito caras. Cria-se uma puta expectativa sobre o efeito que essa história terá no interlocutor e tal efeito é simplesmente frustrante.
Muito mais frustrante quanto maior a impassibilidade do recebimento. Daí nosso apreço àqueles que dominam a arte de narrar, como Cícero, como os contadores de histórias, de causos, profissionais ou amadores, principalmente os amadores e anônimos, como meu amigo Gilvan lá de Caraguá.
            Mas quando não somos bons contadores o melhor mesmo é deixar pra lá. Queria contar pra Silvana algumas dessas picadilhas, as mais lights é claro. Mas deixa quieto.
Mais vale reencontrarmos os cúmplices que divulgarmos tais façanhas de modo atropelado e eufórico. Não é mesmo?
* * *
            — Aquela foi foda em Sinval?
            — Qual?
            — Aquela da Bela Vista.
            — Puta que pariu meu, num sei como você teve coragem
            — Na loucura né, a gente apronta cada uma...
            — Voltar lá nunca mais né?
            — Nunca mais meu, vixe, deus que me livre guarde
* * *
            Magrão e Sinval compravam pó na Bela Vista com esquema drive true, vai veno. Descia-se a rua com os faróis apagados, fazia-se o contorno na rotatória e subia-se novamente com farol baixo. Dava-se um tempo. Descia-se novamente com o pisca ligado, contornava-se a rotatória e esperava-se na esquina. Vinha um maluco e servia. Ali era só pó.
— E Chá?
— Só lá perto da Vai-Vai.
            A mão do avião. Rápida.
            — quantos?, quantos?
            — dois, dois
            Dinheiro numa. Mercadoria n’outra.
            Quem compra pó em drive true procede como aqueles que compram Mcdonalds no mesmo sistema. Ou seja, debulha-se a droga na primeira esquina onde der pra parar.
            Sinval deixara os pinos na custódia de Magrão. Este começara peidar.
            — Tem um CD ai no porta-luvas.
            Encostaram numa quebra sinistra da Santo Antonio. Magrão já batera, dividira, esticara e ajeitara duas filipetas. Sinval enrolara a nota.
            — Vai ai.
            — Não não, vai ai, pode trincá.
            Na primeira bambuzada Sinval sentiu que o bagulho era fraude. Um travo nas vias aéreas superiores e tosse de quem vai morrer.
            — Esse bagulho tá zuado, puta que pariu, puta que pariu, fudeu tudo.
            Nem terminou a pista. Tirou os óculos. Esfregava os olhos e tossia.
            — Água, água, preciso de água, puta que pariu, puta que pariu
            Sinval tava realmente zuado. Me preocupei. Nesses momentos milhões de coisas passam pela cabeça numa velocidade, como dizia o Patropi. Rememorei vários casos semelhantes: nego que cheirou pó de vidro e morreu; fulano que ra-ta-tou gesso e fudeu até as tripa, aquele PM que trincô ENO com sal no Carnaval; o do pó de mármore, o do fermento, o da aspirina, a menina do pó de giz. E se o bicho morre? E a família? E a opinião pública? E a vizinhança meu deus do céu?!
            Sinval abaixa o vidro e vomita. Parece melhor. Fiquei sem ação. Sem palavras. Numa palavra: caretiei.
            — Porra Sinval que merda será essa eim meu?
            — É ENO e num sei mais o que. Acho que giz
            — Puta que pariu meu, que filho da puta eim. Vamo no Procon?
            Vai tomá no cú!
            Sinval gostou da piada. Ainda bem. Sinal de melhora. Joguei o resto pela janela. Um e mei na vala.
            E agora? Sinval ficou taciturno.
            Os dois rodaram pelas ruas da Bela Vista. Subiram a 13 de maio. Tinha muvuca nos bares de rock. Sinval tossia igual tuberculoso. Cafungava. Magrão acendeu um cigarro. Pensava na legalização das drogas, num controle de qualidade, no apaziguamento dos conflitos urbanos, no Casagrande, no Maradona, nos artistas e empresários que tem dinheiro e compram coisa fina, que não pagam veneno cheirando pó de giz e numa par de coisa aleatória
            Pararam lá pros lados do metrô Saúde. Colaram num bote. Pediram breja e conhaque. Sinval já foi direto na jukebox colocar déiz conto de Tim Maia.
            — Então Sinval, eu tenho um plano
            — Um plano?
            — A gente tem que se vingar daquele cú que vendeu essa porra
            — Como assim?
            — A gente volta lá e mata ele!
            — Cê tá louco
            — Sério meu, se liga: a gente encosta, vai veno, eu na pilota, pede o bagulho e quando ele vier entregar eu meto a facada nele. A gente passa no Carrefour e compra uma Tramontina daquelas gigante... aquela serrilhada tá ligado? Tipo a do Rambo... eu enfio no duodeno dele e giro...
            Sinval olhava perplexo o amigo. Eram dois que não faziam mal a uma mosca. Magrão tentou manter o tom, mas acabou entregando. Deram risada e viraram os copos.
            Magrão acendeu um cigarro e comunicou que tinha outro plano, agora mais ponderado e factível. Sinval não dera muita bola no começo. O amigo expôs o plano, a limpeza, a segurança, o risco quase nulo e a possibilidade de enfim amanhecerem na Praia Grande, comerem porção de peixe porquinho, pegar uma praia...
            — Num tem erro Sinval, o que pode acontecer é vim cinco zuado.
            Sinval levantou e foi colocar mais dinheiro na jukebox. Déiz conto de Tonico e Tinoco.
            Aquela prosa arrastada e sofrida dos caipiras, a melancolia da vida sertaneja, o choro da viola, o patético das paisagens, o bar vazio, as garrafas sobre a mesa – mais de oito já - tudo isso agenciava os sentimentos do homem.
            — Porra Magrão, cê dispensou tudo?
            — Tudo.
            — Caralho eim meu, e se o outro tivesse bom?
            — É mesmo eim, nem pesei nisso.
            — Agora ia bem um veneninho eim...
            Sinval queria cheirar. E quando o homem quer cheirar ninguém segura. Daí o segundo plano do Magrão começar. Pediram a conta. Pediram pro Chiquinho trocar uma nota de dez por dez de um real. Tudo feito. A parte material do plano tava pronta.
            Voltaram pra Bela Vista. Desta vez era Magrão quem pilotava a Unera. O procedimento. Encostaram.
            — quantos? quantos ? – era o mesmo funça.
            — cinco, cinco.
            O maluco derrubou cinco pinos na mão do Magrão. Recebeu o bolo de notas. Sete notas de um real envoltas por uma de dez.
            — vaza, vaza ! – gritou Sinval. Magrão saiu na maciota. Sem esticar. Olhando pelo retrovisor. O funça contava a grana...
            Pegaram a 9 de julho. Viraram na Brasil sentido Pinheiros. Largo da Batata. Mais de três da manhã...


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Noite cabotina

Ontem fumei como verdadeiro literato num café da Vila Madalena.
De calça jeans, sapato meio envelhecido, paletó verde musgo envolvendo uma gola rolê grená, cachecol neutro, pernas cruzadas à Carlos Drummond de Andrade, sozinho na mesa, uma taça de vinho do Porto e tragadas anônimas num voluptuoso Benson & Hedges.
Olhar perdido no horizonte vago
Hemingway sobre a mesa pegando sereno
E meu poema de bases futuristas, mas com estilo sóbrio, dobrado no bolso
Pago a conta cheio de inspiração
Quero voltar logo pra casa
Pego o último Jacira no Largo da Batata às 00: 43 e 10° de temperatura.
Mas em vez de ir pra casa, não sei por quem, desço no Largo 13.
E quebro na Paulo Eiró absorvido pelo forrozão do Vavá, vai veno:
No banheiro tiro a gola rolê e o cachecol.
Peço pro Vavá guardar.
E o paletó fica aberto.
Compro Domecq e Derby vermelho.
Em pé, na calçada, abro o maço olhando as primas descansar.
Encostado na parede fumo como verdadeiro operário.
 
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Alexandre Rosa nasceu no bairro do Eldorado, na cidade de Diadema, onde morou até os 25 anos. Reside hoje no bairro do Ipiranga, em São Paulo, com sua companheira Camila e seu filho João, de seis anos.  Tem 35 anos e é formado em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Foi office-boy, estampador de camisetas, soldado da Aeronáutica, Segurança de casas de família, trabalhou na capacitação de catadores de material reciclado para cooperativas, depois virou arte-educador e professor de Sociologia da rede pública de ensino de São Paulo. Atualmente está desempregado e faz mestrado no IEB da USP sobre Lima Barreto.     

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