quinta-feira, 14 de maio de 2015

dois contos de Carlos André



Frango Frito
                                                                                                                                            
Nunca gostei que comamos frango. Uma fraqueza. Nós, que presidimos “aos peixes do mar, às aves do céu, aos animais selváticos, e a toda a terra, e a todos os répteis que se movem sobre a terra”, como dizem as escrituras.  A galinha débil, cujo único sentido me parece ser o ovo (que é muito mais que a galinha), não se supõe que nos mereça. Comamos o touro, a vaca grande, o delfim que nos encante e arremeta. Comamos uma conquista.
           Quando criança, não existindo frango resfriado, ia à granja da vila onde uma mulher grande retirava a ave esperneante viva da gaiola lotada e a levava para trás de um biombo até seus berros aos poucos se extinguirem. A mulher então, que possuía uma ligeira barbicha mefistofélica, me entregava depois de alguns estranhos minutos um embrulho, um quentíssimo embrulho em troca do dinheiro que minha mãe me dera.
              E ia eu embora pra casa, carregando a primeira consciência de um cadáver, enojando o cheiro de morte de frango.
            Já crescido então, feito um Brás Cubas à Europa, fui morar em São Paulo, a grande cidade, o outro mundo além da província.  E, numa noite em que chegamos em casa, mulher e eu, famintos e indispostos para a cozinha, lembrei-me haver inaugurado ha pouco nas vizinhanças da Aclimação um simpático bar, que servia cervejas e frango frito. Dito isto a Synara, tomei uma blusa, que já esfriava, e parti um tanto apressado a ver se ainda encontrava o bar aberto. Bar Frango Frito.
         Uma rádio AM balbucia algo incompreensível. De dentro do balcão um homem corpulento, forte, de compleição quase tribal, indígena, me atendeu simpaticamente e, feito o meu pedido, retomou conversa com um senhor feio, com uma grande jaqueta de couro, que até então eu mal havia notado do outro lado, em frente a mim.
           Às primeiras palavras pouco se me dei, atento que estava aos procedimentos do volumoso gourmet a selecionar os pedaços de ave para o óleo fervente com a naturalidade própria da perícia.
                De repente uma risada conjunta me despertou dos devaneios e lembranças infantis me convidando a partilhar sua alegria. ‘São velhos amigos’, intui.
                O mais velho falou, olhando para mim, notando meu interesse nascente:
               ‘E o homem chorava que nem criancinha, rapaz’. Um tanto tísico, sua figura causava compaixão e repulsa.
                ‘Já vi até quem chamasse pela mãe, sargento’, disse o mais forte.
             Ainda sem entender bem, ou querendo que não entendesse, mantive um meio sorrido complacente.
         ‘Teve um’, tornou o mais velho, ‘idade desse rapazinho aí’, um calafrio quase desmontou meu sorriso, ‘deu dó. Quando Tenente Mathias esquentou o ferro, o menino de cabeça pra baixo se tremendo igualzinho bambu velho, vi até cabo fechando os olhos’.
            ‘O Mathias era homem, hein!’, disse o outro mexendo a fritura com uma grande escumadeira, ‘não tinha quem não abrisse com ele!’
                ‘Tempo bom, rapaz’, o velho, que agora mais ia parecendo envelhecer. ‘tinha isso aí de maconha não! Ah, não tinha! Cabra saísse da linha, fizesse errado, coro comia que nego não errava nunca mais. Capitão aí ó, já fez muito serviço social’, apontou pro outro, que rompendo em nova gargalhada mais ia se parecendo maior.
                ‘Assim o senhor vai assustar o jovem’
                ‘Que nada! Gente boa sempre teve do nosso lado’, atalhou o velho.
                Eu pouco conseguia saber o que fazer. Como ser ali. Mudo. O frango fritando pelas mãos daquele homem, pelas mãos daquela história, por tantas mãos. Quebradas mãos, pensei.
                ‘Quer bem passado?’, perguntou o cozinheiro.
                ‘N-n-não’, gaguejei, como me interrogassem. Sala escura, a mãe distante dali. ‘N-n-não. Pode ser assim mesmo. T-t-tá ótimo assim.  
                Subitamente um silêncio enorme apareceu. Os homens não falavam mais. O mais forte embalou o frango. Cemitério clandestino, pensei.
                Paguei. Saí.
                Na rua eu tremia mais que o frio impingisse. Um soluço embargou a voz que eu não tinha.

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Hitler

Mal sabia como parara ali. Talvez a recusa do editor, a gastrite de novo, ou mero acaso do caminho. O parque era pobre e mal cuidado. Além do banco em que sentara apenas mais um, ao lado, onde duas senhoras conversavam.
As crianças com as mãos na terra brincavam a tarde cinza como ela fosse simples e terna. Maldita literatura!, pensou, ofício e pena do seu corpo. Pudera cozinhar como seu amigo Zaquel e viver sem palavra!   
Assim ruminava quando ouviu: Riteler! Riteler, menino, vem cá!
Pensou primeiro estar outra vez alucinando, como ha pouco com as esferas ou os padres comendo alcachofras no leilão de sua casa. Riteler, vem já!.
O menor dos meninos, que até então nem notara, acorreu enfim a contragosto para a mãe que lhe limpou com presteza o nariz.
Lembrou que pela manhã assaltaram Cássio, que chegou a sua casa machucado na hora em que estava prestes a sair. Estaria melhor o amigo? Mundo cru.
Não é uma gracinha?!, disse a mãe para a amiga.
Hitler. Será ainda possível fazer arte, em 2014? Arte em plena guerra?, pensou.
Foi quando a única menina do grupo, flora, rainha como toda mulher entre homens, consumou: Riteler, você não sabe brincar! Sai daqui! O pequeno, subjugado, não chorou como se podia esperar. Atulhou uns poucos brinquedos e se foi para ali ao lado, exilado, fatídico.
Era isso então. Parou a observar.
O pequeno começou a custo o que parecia ser a obra de um castelo. Com as pequenas mãozinhas fez o que se podia julgar uma rústica muralha que, circulando um monte de areia central, deixava supor-se, numa abertura frontal, um portão para infinitos exércitos. Colocados em pontos estratégicos da fortaleza, pequenos bonecos pareciam fazer as vezes de guardas furiosos, prontos ao extermínio de todo e qualquer invasor.
Qualquer um que não seja alemão, pensou. Câmara de gás. Os bandidos batendo em Cássio porque Cássio não lhes era.
Discutira com Cassio uma vez. O amigo defendendo pioneirismos de Riefenstahl além do barbarismo do Mein Kampf. É possível estética amoral? Será toda estética uma problematização moral? Zaquel, presente, ouvia e não dizia nada, pensando talvez em patos ou amoras.
Riteler posicionava agora ao lado de fora do forte alguns poucos e maltratados carrinhos de plástico. Tanques em Varsóvia, frente leste - recapitula.
Não poupariam nem essas crianças. A menina jamais mulher, o pequeno uma granada na boca. Porra!
Deveria escrever sobre isso. Esses subúrbios. Essa memória universal. Venderia? Pouco vende. Venceria ao menos o editor? Adoraria vencê-lo.
Riteler parecia declarar a guerra. Organizado. Acorre a um mato próximo, como buscasse a grande bomba. Traz um galhinho, que com alguma dificuldade consegue fixar ao alto do castelo. Tudo bandeiras esse mundo.
A banalidade do mal. Adolf Eichmann. Ministério da desburocratização. Eu grito contra os muros do poder, pensou. Mas não gritou.
Riteler, tudo a postos, diz para que todos ouçam, para que o mundo tremer outra vez: um, dois, três e...
No fundo tem medo, como um desconhecido autor tcheco do século passado, que escreva para o nada. Tem medo de que suas palavras não integrem a jubilosa e vã plêiade de suas paixões literárias e não passem de puro exercício estéril de linguagem. Tem medo de não poder contar a história de um menino chamado Riteler no terceiro mundo. Tem medo que matem Cássio, Jaquel, ele mesmo. Medo do editor pois teme que o publiquem. Tem medo da bomba que agora explodirá levando todo o sentido, apagando a tarde para sempre.
Um, dois, três e... repete Riteler, mais forte para que as outras crianças o admitam. Um dois três e...
Parabéns pra você! nessa data querida! muitas felicidades! Muitos anos de vida!
Apaga depois o pequeno a vela fantástica, visível apenas à sua infância.
            Será meu aniversário em breve, pensa o pobre autor enquanto lhe escorre uma lágrima. Outro aniversário. E rápido se-lhe insinua por conta própria um riso no canto da boca.
            A menina então, sem o que a possa evitar, imperiosa vai até o bolo de aniversário do pequeno e o chuta, pisa, sem que as senhoras, distraídas, vejam nada. Grita alguma coisa incompreensível para o menino enquanto lhe faz um aceno grosseiro.
            Riteler então, olhando para o céu, fecha os olhos e chora.



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Carlos André, de 83. talvez nem fosse. talvez. virou e-s-c-r-i-t-o-r-r-r. Nem isso ainda? Editor do zine Clóe. Publicou em 2012 'tempo algum', uma antologia marginal do abcd. Lendo Marcelo Torres.



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