sábado, 16 de maio de 2015





Marco Antônio Machado é compositor e instrumentista. É integrante do grupo de música contemporânea Tempo-Câmara, que mantém atividades de musica formal escrita e também de livre improvisação. Um dos procedimentos composicionais recorrentes de de Marco Antônio é a colagem, tema do doutoramento que desenvolve atualmente na Unicamp. 
Além de diversas peças que estreou no Tempo-Câmara, ele compôs a peça Amostras, executada pela Orquestra de Sopros da UFRJ (2012); e a  peça ReComposição, executada pela Orquestra Sinfônica da Escola de Música da UFRJ (2015), entre outras. O primeiro movimento desta última peça - movimento intitulado Os 12 Obstinados - também foi executado pela Orquestra Sinfônica de São José dos Campos: 




Em 2013, Marco Antônio foi signatário, junto a outros compositores, do Manifesto Interior, lançando algumas idéias que norteiam uma visão a respeito da música hoje:


MANIFESTO INTERIOR 
O Século XX é História, passou.



Webern é Velho, Villa é Velho, Varèse é Velho!

Vai - We - Vi, Wolfgang - Vu!



Todo ismo é caso particular de narcisismo.

Partituras de concurso não nos interessam. O que nos interessa é o pleno exercício das possibilidades, o fim das patrulhas e dos grafismos de portfólio.

Nossa música não precisa ser balizada/aprovada/homologada/avaliada/graduada por nenhuma autoridade da história da música universal.
Nossa música não necessita de carimbos, legitimização ou críticas favoráveis. Só necessita existir.



A Música não se divide entre popular e erudita! Já que todas as músicas tradicionais estão repletas de erudição e, ainda que vossa-mercê traje smoking, és POVO.



Deixemos as gavetas para os boletins, históricos escolares, diplomas e cartinhas de “parabéns!” dos concursos e festivais. O lugar das partituras é nas estantes. (Em caso de indisponibilidade de orquestras e outras formações tradicionais, elegantes e pomposas, favor reescrever para violões, cavaquinhos, guitarras elétricas, bandolins, sanfonas, percussão, etc.)



Pelo compositor que desce da torre de marfim e não volta nunca mais porque bebeu muita cerveja e ficou com preguiça de subir de novo todos aqueles degraus.



Pelo compositor que gosta de ouvir música.

Todo ismo é caso particular de narcisismo. Mas quando é sistema, é sistema.

O artesanato que subverte a indústria. A canção. Os afetos literários. Os lieds de Schubert guardados em uma caixa no sótão junto com os álbuns de figurinhas. Daquelas que davam prêmios.

Laboratórios! Experimentos levianos, rascunhos, improvisações, gambiarras, garatujas. Penduremos o medo de errar e os juízos de valor no cabide antes de entrar. Sem bom/ruim. Empirismo. Vida.

Sejamos excêntricos em vez de eurocêntricos. O saci não quer mais usar peruca branca e pó na cara. O saci quer desaprender a usar os talheres. Quer ficar pelado para que o mundo veja como se mantém numa perna só.

O interior em oposição a todo tipo de capital. O interior reafirmado, assertivo, desafetado. A Arte livre do preço que a arte custa. Retiremos das elites a posse dos cartórios que homologam a arte. Transformemos estes cartórios em botecos.

O interior artesanal em oposição à capitalização industrial da música. O artesanato para substituir o produto. Arte e artesanato como vias distintas, sem oposição entre si.

O caminho do meio não é um convite à mediocridade. O excesso é necessário para delimitar pontos de equilíbrio. Partituras premiadas por augusto júri de renomados legisladores do fazer musical (que estudaram no estrangeiro e por isso sabem das coisas) não nos interessam.

Nosso ambiente de concerto é o mundo. A mudança no exterior se dará a partir do fortalecimento no interior. Sem fraques, tosses secas, assinaturas de temporadas e olhinhos burgueses fechados para ouvir o eterno século XIX; sem esnobismos, fetichismos e polêmicas de gueto para ouvir o século XX. Música livre de julgamentos institucionais, sociais e estéticos. Afinal, já chegamos ao século XXI.

São José dos Campos, novembro de 2013



Assinam:
Bruno  Ishisaki, compositor

Dino Beghetto , compositor

Laiana  Oliveira, compositora

Marco Antônio Machado, compositor
Paulo Henrique Raposo, compositor


Recentemente,  Marco Antônio formou a Banda de Folclore Joseense Desbocado, uma banda irreverente de "roquinhos caipiras". No contexto dessa banda, compôs a música Tanto Faz, a partir do poema Clausura, de Marcus Groza, e de Kinderszenen, Opus 15 (Cenas da Infância), do compositor alemão Robert Schumann, especificamente um andamento chamado Kind im Einschlummrn (Criaça adormecendo).
Abaixo a canção e na sequência o poema e o andamento de Schumann utilizado na colagem:
             







Clausura, de Marcus Groza

tanto faz
tanto faz
se bocas
fossas nasais
conchas acústicas
cavidade uterina
bucetas úmidas
o nome qual seja
você mesmo estipula
buraco fresta ou greta
tudo serve de esconderijo
sacrário cova cu ou clausura
pois afinal de contas a gente
nasce vive e morre em uma



+ Veja vídeo da Criação Multiartística proposta pelo Tempo-Câmara, envolvendo músicos, duas balairinas, uma palhaça, um poeta e uma artista visual:


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