terça-feira, 26 de maio de 2015

poemas de Rita Isadora Pessoa



"fechada para obra"


meteoritos no banheiro
machados rasuras
escombros à direita
paisagem com mar
ao fundo

no eixo
das pedras
meu rio
lambe
tuas rochas
feito espelho


                                                                                                                                 







galápagos


há que existir um pacto telúrico:
         uma existência de trópico
exige essa consistência turva de 
                         sulco.

o processo é doloroso
para aqueles que um dia
viveram
na água

      então, 
esse vermelho
tinge o mar todo
em coágulos 
      águas-vivas 
sanguinárias dançam
rascantes pela praia
      à noite
o seu relevo ulcerado
[a mesma superfície das
      estrelas marinhas]
retine a velha sereia 
em sua habitação
           sem som

mas eu
eu não sobrevivo na água,

sou atravessada
por um baque luminoso
de holofote e dor.
perfuro a rocha 
e me livro das anêmonas
               salgadas
feridas em fúria, 
em movimentos circulares,
     concêntricos.
atinjo a antecedência da terra,
            mas permaneço
em estado de ilha, como em meditação 
forçada, como réptil que abdicou da
               habilidade aquática,
em desajuste sólido, seco.
uma desadaptação equivocada,
esse desterro primeiro
que precede 
a espécie 
          e o reino.






 "autogeografia infame"

há que se pagar um preço
pela tentativa risível
de erigir uma pessoa
sobre uma falha sísmica.

estátuas de sal
não são realmente pessoas,
percebe?
dissolvem-se
em nevoeiro marítimo
antes do amanhecer:

meu demônio-meridiano
é uma mulher de corpo ampulheta
[um duplo]
e honestamente,
não sei bem o que fazer
                        com tantas curvas.

a mim, sempre agradou o sul
para onde escorregam
                  [salvos do abate]
todos os novilhos brancos
e também os pardos;

a verdade é que
um pacto
com o trópico de antes
me mantém
ainda por aqui,
entre os comensais.

mas tenho brotado
oceanos
[como uma boa menina
- em segredo]

para fugas e travessias.






palavras que adianto/arrisco/risco/hesito 
para seguir adiante II
a um leão


preciso que você saiba
que não há garantias
não mais do que
flancos de águas ou ilhas
submarinas nos darão
posso dizer-te que
de onde venho as pessoas
são ravinadas no sal
das planícies em curva
preciso que você
saiba do medo
descomunal
que sinto te dizer
dos demônios que conjuro
para que você possa sobreviver
aos dias e aos domingos
eu poderia te contar
que adivinho as suas
pestanas enlanguescidas
depois de um dia de trabalho
que os dedos enrugados
me comovem
mais do que a água
que profetizei nossos
filhos gêmeos
na noite em que te conheci
e que tenho medo.

eu contaria
até dez
duas três vezes
até passar o susto
de te ter tão perto
sob esse risco circular
de devorar
o seu coração leonino
com as minhas vespas
acidentais






"invernal"

tenho cultivado entre dedos
enregelados
um desejo mineral
de imobilidade

como têm
as primeiras
rochas calcárias

uma existência
exaustiva
de liquens sobre superfícies
erodidas dia após dia, gota
sobre gota hirsuta

[a consciência
do grão se faz lentamente

impermeável sobre mim]

devasta
paragens

de um verão incompleto
e talha fendas interiores
adormecidas como bestas
uma vez queridas










Rita Isadora Pessoa nasceu no Rio, mas foi uma criança gótica entre as salinas da região dos lagos. É escritora e tem certeza de que esse sobrenome ainda lhe renderá alguns heterônimos. Por conta disso (ou a despeito disso) é também até o presente momento: ex-psicanalista mafiosa, ex-editora de vídeos, tradutora, figurinista ocasional, astróloga & taróloga & quiromante e doutoranda em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escreve no blog http://desencaixotandorita.blogspot.com.br/.

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