sábado, 16 de maio de 2015

Titio, de Dione Carlos

                                                                                                   [foto: Bob Souza]



TITIO

Pés descalços na calçada. Os chinelos dentro de casa. O registro dos meus passos na borracha. Não apagaria nenhum passo. Pés calçados na sarjeta. O pai de mãos erguidas contra o filho de batom. Ele poderia ter pedido um beijo, apenas isso, ganhar a marca dos meus lábios que diziam me ame.  Pés para fora de casa. Sai você ou saio eu. Meus pés ainda em crescimento no cimento, cada passo, um chão mais cinza. Só resta olhar para cima quando sua vida está de cabeça para baixo. É interessante notar que as nuvens podem ser tudo, menos desenhos, são apenas respingos impressionistas brancos.  Na dificuldade você investiga suas habilidades. Não são muitas. Seus pés estão cansados de andar sem lugar para chegar. Então, uma pedra vira um caminho. Estava escrito, você pensa. E se tudo tiver que ser minuciosamente escrito? Comecei isso aqui pelos meus pés. Agora estou na rua. Uma encruzilhada na minha frente. Você se pergunta por algum tipo de situação ficcional, mas ela ainda não se apresenta. Pensa em algum tipo de identificação que obrigue vocês a me ouvirem com curiosidade. Se eu cantar ou fumar, talvez ajude. Expandir os sentidos com o apoio de algo reconhecível. Fumaça e entretenimento. Meus pés brilham. Cristais colados no sapato. Se eu dançar ou me masturbar, talvez ajude. Saciar a fome dos olhos no lugar de penetrar o ouvido. Se você não ouve, ainda pode ver. Sou esse tipo de pessoa, que caminha surdo, com algo gritando dentro de mim. Sinto apenas os tremores. E, quando eles começam, eu paro tudo e recomeço a fazer o que faço todos os dias e a ver e dizer o que vejo e digo todos os dias. Você quer ser aceito. Meus pés traçam o destino das minhas pernas e sobem, sobem. O destino acaba antes de chegar ao meu tronco. Ele desiste na minha cintura. Sou um tio, o amigo da mãe solteira. Ela coloca o aplique com cuidado. Tio, tá machucando? O cabelo? O sapato, tio. É de mulher. Ele é meu tio, trabalha na lavanderia do hospital público. Titio costura com afinco a lantejoula no tecido liso. A casa dele brilha, é perfumada. As paredes repletas de colagens. Onde fica essa ilha, tio?  Ele me pede para ligar o aparelho de som, assistir e opinar sobre a sua coreografia. Titio quer romance na vida, eu ouvi isso na sala da minha casa. Titio quer romance. Nunca ouvi falar disso. Titio tem vergonha de virar tia na minha frente. Pego a peruca. Deixa que eu faço isso para você, tio. Palco improvisado de madeira. A boca mexe ao som da voz de outro. É perfeito o encontro do movimento com o som. Titio é como um calouro de algum show de auditório. Só que é todo dia. Sua coleção de abacaxis aumenta. Na parede, colados na geladeira, no tapete da sala, na roupa de cama, no cesto de frutas. Tio, me dá um abacaxi? Ela fica na coxia. Não a quero no meio do meu público de festa junina de rua, nem boate com cheiro de mofo. Não a quero no meio de cheiro de fumaça com banheiro sujo. Ela fica na coxia. Flagra a lateral do meu corpo como um detetive, investigando cada movimento. Preciso ser perfeita. Preciso ensiná-la a ser uma dama. Você ainda vai me amar depois disso? Vamos sentar e costurar lantejoula. Você penteia a minha peruca. Você pode me perguntar o que quiser. Você ainda me ama depois disso. Meus pés descem do salto por você. A marca roxa no meu rosto. O que foi isso, Titio? O romance fez isso, Titio? Não quero romance. Desisti disso muito cedo. Nenhum amor vale o hematoma até você sentir necessidade de alguém. Nenhum hematoma vale nenhum amor. Duas pessoas conversam dentro de uma, Tio. Sabe como isso acontece? Eu te amava porque você era odiado. Eu sei como é. Eu sempre amo os odiados. Os queridos não precisam de mais amor. O amor os estraga mais e mais, vicia, deforma. Eles querem receber, os queridos. Querem entrar mais e mais e se abastecer. Os outros não existem, Tio. A menina marcou a arcada dentária no meu braço. Enfiaram o dedo com tanta força que me tiraram sangue. Quebraram a bicicleta e pisaram na minha cabeça. Eu amo os odiadores, Tio. Eu me vingo deles. Você entende, não é, Tio? O meu amor é virulento. Eles nutriam um interesse predatório por mim. O salto do sapato cravado no braço. Caminho pelo meu corpo, Tio. Ele é um pouco parecido com os seus enchimentos de espuma. Cada passo, um pico de salto agulha. Não dói mais. Ela dorme no sofá de retalho, bebemos a mãe dela e eu. Sou uma figura paterna feminina. Você cresce, seus seios despontam promissores. O homem em mim percebe a mulher recém-nascida em você. O homem em mim observa o homem em você. Ele é mais alto e mais forte que eu. O seu modelo de homem pisa firme e chupa o salto do seu sapato. O seu modelo de homem é uma promessa de destruição. Meu corpo enfraquecido. Você cresce enquanto morro. E o que é se liberar deste corpo que nunca satisfez meu desejo de ser? Morrer é desmontá-lo. Ser hipótese anatômica. Ele ouve Caruso. Quem? Nós, Tio. Caruso é como a voz de todos os barcos de imigrantes. Um dia estarei no seu país também. De sapato novo e lantejoula dourada.


Dione Carlos é dramaturga e atriz. Carioca, radicada em São Paulo desde os 19 anos, tem desenvolvido como dramaturga parcerias com diversas companhias teatrais. Dentre outras peças, Dione é autora de Sete, dirigido por Juliana Galdino, na Cia. Club Noir (2012); Mamute, com a Cia. do Mofo (2015); Bonita, com direção de Alex Araújo, na Cia. Caminho Velho (2015). Este texto - TITIO, foi à cena, no final de 2014, com direção de Dawton Abranches, com Guilherme Barros no elenco, na Cia do Pássaro.


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