quinta-feira, 4 de junho de 2015

Treze Anjos, de José Donizetti dos Santos


[Pintura do autor]


Treze anjos vieram hoje pela madrugada
Entraram pela cozinha da minha casa,
Belos, fortes, calados e severos.


O primeiro anjo tomou-me pela mão
E levou-me para o campo, no meio da montanha,
Entre as árvores mais velhas, as grandes figueiras.
Eu estava tão assustado que obedeci em silêncio.
Ele pôs-me deitado sobre a grama molhada de orvalho
Colocou os dedos em minha garganta
E arrancou um negro espinho de butiá.
Minha dor foi tão grande que meu grito vibrou
Entre as pedras da montanha.
Depois a dor foi passando e minha voz tornou-se
Um doce canto deserto dentro de mim.
Ainda posso ouvir essa dor transmutada.
Alguns pássaros ainda estão assustados
dentro das ramagens mais espessas das figueiras.
Algo no ar ainda arde como espinhos e punhais.


O segundo anjo aproximou-se de mim
Tocou o meu pulso direito e arrancou outro espinho.
A mesma grande dor impediu meu grito.
O susto calou qualquer gemido ou soluço.
Todo o sangue e todas as mágoas dos adeuses
Que tive que acenar ficaram gotejando pelo chão
Durante longos segundos silenciosos e turvos.
Agora minha mão está tão calada como um galho
Que foi amputado pela tempestade.
Alguma criança feliz tenta entoar uma canção antiga.
Ouço o movimento de seu hálito nas folhas da grama.


O terceiro anjo tocou meu peito e retirou um imenso espinho
Negro de coágulos de amor, malcheiroso como um cadáver
De um menino que o mar devolve pela madrugada, na areia.
O grande anjo calado ateou fogo nos coágulos presos nas raízes
E toda a grama ficou azul e vermelha, como chama de gás.
Acredito que vislumbrei teu rosto na neblina, diluindo-se
Para sempre na fumaça, na úmida fumaça azul metálica.
Teus olhos estavam lá, livres de qualquer corpo ou pensamento.
Minha dor foi desaparecendo como um pássaro que voa.
Meu peito é um oco túnel cheirando a xilocaína e menta.
Nada restou de tua gentileza, de teus silêncios, tuas cores azuis.


Um grande quarto anjo agitou asas, inúmeras asas azuis,
Iguais a teus olhos, mares excessivamente salgados, gelos,
Camarões mortos, peixes de olhos de hortênsia e ardósia azul.
Ouvi som de sabres, trompas de prata, oboés de argila,
Aéreas fantasias e o roçar de silenciosas traças solitárias.
Cartas antigas não enviadas, ainda lacradas e seladas,
Que não haviam cumprido sua sina, voejaram, brancos morcegos,
No resto de lua filtrado pelas negras folhas verdes das figueiras.
O anjo retirou de meu umbigo um dolorido espinho preto
E jorrou pelo ar da madrugada o grito de minha mãe
Assassinada pela solidão das fábricas e das igrejas.
Pensei que eu tivesse gritado, mas o anjo repreendeu meu pensamento
Com seu olhar vazio com um vidro vazio, como um vidro
Partido dentro de um olhar vazio, vidro moído.
Falta em mim um umbigo de vidro e um noturno grito azul.
Há leite e açúcar derramado no pescoço dos rios.
Estranhas aves bicam o chão para achar meu sangue.


O quinto anjo era quase visível dentro das pedras ao redor
Das grandes figueiras negras, vestidas de neblina.
Seu dedo tocou meu sexo e retirou um espinho negro
Sombria solidão sem sentido, sonhos separados, silêncios
Apreendidos em meio a ladainhas e livros sagrados.
Todo o sangue coagulado de esperas e desejos que deveria
Cobrir a face escaldante da terra ficou retido no vento
Que desenhou um lobo escarlate no coração da neblina.
Deuses e andróides arriscavam tímidos passos
Dentro das fundas cacimbas de terra e pesadelos.
O anjo quis me falar o nome de todos os culpados
Mas não entendi sua linguagem tão indiana. Calou-se, então.
Ainda há no ar um rumor de seu silêncio enclausurado.
Alguns frades de fedorentos panos negros habitam
A solidão medieval das estradas de terra vermelha.
Içás voejam e caem dentro de garrafas verdes.
A areia está desenhada com flores de café e lírios.
Lebres latem dentro da noite, a lua se cala, aflita e densa.
A montanha é sinistra e sagrada, cruzes brilham no escuro.


O sexto anjo era quase um mago, azul como teus olhos,
Asas tão perfeitas como se fosse um marreco azul num lago.
O sal fluorescente de seus dedos retirou de meus joelhos
Dois negros espinhos sagrados, que respingaram a grama
Com um sólido ruído de caleidoscópio e asas em chamas.
Deus nunca esteve presente em minha vida.
Se um santo ou um intercessor buscou por mim um dia
Errou o caminho e afogou-se em mares de areia e murta.
Se uma prece rogou por minha alma uma tarde ou noite
Ficou fisgada em alguma lança de grade de jardim
Das casas da cidade vestida pela chuva eterna, chuva de vidro.
Ainda chove em minha cidade desde o primeiro grito
Que a minha solidão registrou no amianto azul da poesia.
Caíram de meus joelhos flores de negro crepom
Como as que enfeitam os túmulos dos monges da cidade da chuva.
Teus olhos azuis nunca existiram nem eu os imaginei
São alheias memórias que interceptaram meu silêncio.
Deus é um homem andrajoso que percorre minhas veias
Pedindo pão e romã de porta em porta, em vão, em vão.
Vidros azuis seriam teus olhos de areia e mel, se existissem.


O sétimo anjo arrancou de meus pés os espinhos negros
Que recebi em Jerusalém durante a pregação final de Pentecostes
Onde ouvi a tua voz de ausência e perdão. Onde me esqueci
De ti, de nossos olhos abismados em fósforos e algodão.
Todo o azul de seus olhos diluiu-se dentro de um vidro de água,
Nas paredes dos presídios e dos monastérios espanhóis.
Deus é um caramujo verde que abandonou sua casca dura
E caminha pelo milharal na montanha da lua, enluarando
A terra com seu rastro de esperma e prata, sobre o capim seco.
Laranja e xilocaína, acupuntura com sementes de mostarda
E agulhas de ouriço, curam o silêncio de nossos pés.
Deus teme a fúria do sétimo anjo e fica atrás das figueiras,
Apenas os olhos acima das pedras, vigiando minha cura.
Deus tem medo de nós, alvos de sua ignomínia e crueldade.
Perdôo Deus mesmo que teus olhos azuis nunca mais naveguem
Nos sagrados rituais de minha solidão de amianto e mel.


Os outros anjos, todos eles, asas, espadas, trompas, trombetas,
Ametistas, ouro e terra, rodopiaram em volta de meu cadáver,
Até que a areia removida de meu corpo cobriu a figueira
E os apavorados olhos de Deus, cisterna morna de açúcar,
Flor de romã arrancada pela chuva de novembro, na montanha.
Os sete anjos cercaram o meu corpo enquanto o turbilhão
Dos outros anjos desmontaram todas as minha células, uma a uma,
Misturaram o citoplasma com a água verde das figueiras
E com o ruído dos corações das tangerinas maduras,
Depois, mansamente, como um enfermeiro silencioso
Que habitasse uma UTI de cancerosos e asmáticos,
Foram cobrindo de remédios e de pensamentos cada pensamento meu.
Depois reconstruíram meu corpo com areia e amianto verde.
Depois disseram a Deus que partisse e me deixasse dormir
Por uma hora, até que o despertador tocasse, pela manhã.
Deus partiu, calado, em sua roupa vermelha e marrom.


Então os anjos me lembraram de ti, de teus olhos azuis,
De teu lençol azul, de teu carro azul, de tuas mãos azuis.
Os anjos me lembraram de tuas palavras azuis, azuis, azuis,
Tomando água mineral sem gás e comendo misto frio.
Os anjos é que me falaram de ti, senão eu não saberia que te amei.




José Donizetti dos Santos é escritor, pintor e professor. Vive em Salesópolis - SP, onde leciona Filosofia numa escola pública. Tem formação em Psicanálise e trabalha eventualmente com teatro. É co-autor dos livros "Um Grito no Vale - Contos Assombrados" e "Lili Figureira". Prepara atualmente o livro de contos "Vale de Lírios".




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