sexta-feira, 19 de junho de 2015

Crônica de Bruno Ishisaki


O HOMEM DE BEM

O cidadão de bem paga seus impostos. Quase todos. A maioria pelo menos. O que ele sonega, sonega justamente, afinal, está do lado do bem. Deus entende o seu lado. O cidadão de bem é inexoravelmente um ser religioso. É um ser moral. Disseram a ele que o fruto de certa árvore deu ao homem o conhecimento do bem e do mal, e é nessa certeza que o cidadão de bem apóia suas convicções: ele sabe o que é bom ou mau. A partir da posse de uma única verdade, o mundo vira uma coisa fácil de entender.
O fruto da árvore foi comido primeiro por uma mulher. Depois ela o ofereceu ao homem. “Que confusão a mulher aprontou para o homem”, pensa o cidadão de bem. Felizmente, o cidadão de bem sabe perfeitamente qual é o lugar da mulher. É abaixo dele. O cidadão de bem quer a mulher submissa; precisa vigiá-la, para que não cometa outra cagada como essa da fruta proibida.
Por ser detentor de uma verdade, o cidadão de bem condena os desvios. O cidadão de bem não tem nada contra gays, lésbicas, transex e outros devires, desde que estes não façam parte de seu círculo de convivência. É bom que seu filho não vire viado. Se virar viado, é porque alguma coisa deu errado. Talvez tenha faltado umas cintadas no moleque... talvez o cidadão de bem devesse mesmo ter levado o menino pro puteiro...
Ah, e as prostitutas. O cidadão de bem, pelo menos uma vez na sua vida, entrou num puteiro. Uma boa parcela já comeu uma puta. Mas o cidadão de bem sabe que as putas não tem lugar numa sociedade do bem. O que fazer com essas mulheres? A sociedade do bem não pode legalizar atividades tão imorais; o Estado não pode garantir direitos a essa classe de gente. Puta não trabalha, a vida dela é fácil. Quem opta pela vida fácil não merece aposentadoria.
Vida fácil é algo que o cidadão de bem repudia. Por isso ele tem esse hábito bonito de grudar no saco do chefe até conseguir uma oportunidade na empresa. O cidadão de bem nem precisa tomar um Viagra pra ter uma ereção quando fica sabendo que seu rival na firma foi demitido. A vida do cidadão de bem tem esses momentos do caralho. Vale a pena fazer hora extra, porque além de ganhar mais dinheiro e ter menos tempo pra gastar, dá pra fazer uma média com a chefia, coisa que o Genésio (não é um cidadão de bem, é meio viado, meio mulato e vota num certo partido aí que é categoricamente do mal) não fez e por isso vai se fuder bonito. Bem feito.
O cidadão de bem quer que as leis sejam cumpridas. Não todas, só aquelas que garantem que os meninos miseráveis que, vez ou outra o abordam, permaneçam bem longe do seu bairro emergente. Ou os mendigos, drogados. Tem alguns morenos mal encarados também que deixam o cidadão de bem meio inseguro. Por isso, o cidadão de bem gosta muito de polícia. É gostoso ver aqueles vídeos na internet nos quais a polícia desce o cacete em meliantes. É gostoso sentir raiva de marginal assistindo o Cidade Alerta. O cidadão de bem vive de pequenos prazeres.
E essas coisas ruins todas que acontecem no bairro, na cidade, no país, o cidadão de bem nada tem a ver com elas. O cidadão de bem não é corrupto como essa corja de políticos que está aí. O cidadão de bem não compactua com toda essa sujeira que está aí. Porque quando o cidadão de bem tira vantagem de alguém, é porque o trouxa mereceu. Quando o cidadão de bem se aproveita de uma situação, é porque Deus lhe deu uma oportunidade. Quando o cidadão de bem dá migué no imposto de renda, é porque ele não quer dar dinheiro pros políticos, não quer financiar essa coisa errada que está aí. Há sempre um motivo nobre, há sempre uma moral sublime. Há sempre uma verdade nas ações do homem de bem.
O homem de bem é heroico. O homem de bem é normal. O homem de bem está no meio de tudo. O homem de bem é natural. O homem de bem não lê muito, e quando lê, são coisas leves, porque o trabalho desgasta demais. Mas ele bem sabe que ler muito é perigoso. Alguns amigos do homem de bem começaram a ler demais e viraram seres do mal: se dizem de esquerda, citam coisas do Marx (aquele demônio!), vem com uns papos de que cota é algo bom, de que bolsa é legal, de que o certo é dar dinheiro pra pobre... é foda. Tem que tomar cuidado com esse negócio de leitura, Deus não quer que a gente se exalte demais, Deus quer que a gente saiba o nosso lugar, assim como o homem quer que a mulher saiba o dela.

Ainda bem que nosso país está cheio de gente do bem. Tanta gente assim só pode fazer nosso país melhorar. Pena que as pessoas de bem surgiram há pouco tempo. Agora que chegaram, o mundo tem salvação. Bora prender moleque de 16 anos, terceirizar o trabalho, acabar com os gastos públicos... Bora fazer do mundo um lugar melhor! Vamos transformar esse país em um país do bem! Não dou um ano pra esse país bombar com toda essa gente do bem nas ruas, nos escritórios, cartórios, bancos, indústrias. Vai ser foda.


+ Uma canção de Bruno Ishisaki:






Bruno Ishisaki nasceu em São José dos Campos e é compositor. Bacharel em Música Popular pela UNICAMP, Especialista em Composição pela FMCG e Mestre em Processos Criativos pela UNICAMP, atua como músico nos grupos Tempo-Câmara e Banda do Folclore Joseense Desbocado e como docente de nível superior na FAVCOLESP.

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