quinta-feira, 4 de junho de 2015

::janelas:: se debruçam Alexandre Costa y Nara Rosetto


projeto JANELAS DE SP              
                                           
um desenho por semana pelas ruas de São Paulo.





                                                                                                                         por Nara Rosetto



2014
Rua Mato Grosso, 2014








Minhocão, 2014





Red Bull Station, 2015




SESC Pompéia, 2015
              


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JANELAS
                                           um poema de Alexandre Costa


Incontornáveis,
possuem a força do que se vê todos os dias
e a nitidez pelo que se vê os dias todos.
Por toda a parte,
incontáveis,
janelas partem
a intransigência do concreto,
cedendo-o à imensidão.

Há quem as considere uma espécie de porta,
com o pensar indiferente e distraído
de quem não distingue coisa e coisa:
uma porta,
uma passagem para o corpo;
uma janela,
uma passagem para uma outra coisa qualquer.

Janelas têm o dom de atrair os olhos,
cativando-os
com o ímpeto irresistível de um instinto.
O que haverá atrás de uma janela
que enfeitiça tanto?
O que há em seu detrás,
independentemente de onde se esteja,
aquém ou além dela?

Por trás de uma janela não há nada,
só a janela mesma
a comunicar dois mundos.
É como um prisma,
a janela,
traduzindo-os de luz a luz:
o ponto claro que abre o universo,
o feixe raro em que o sólido admite sua fragilidade.

Uma janela,
a parte oca em que a parede densa
leve se declara;
o espaço em que se cria trânsito
para o que além era prisão.

Há tanta esperança na ideia de uma janela
como se (ela) prometesse
uma fuga da mesmice,
uma abertura para a amplidão que nos escapa,
um horizonte qualquer onde a vida cresça.

Mas janelas não prometem –
janelas mostram.
Mostram o que há e é,
como se fossem os olhos de todo edifício,
como se fossem os óleos que lubrificam a visão.

Se tua casa é pequena
mas a janela ampla
ela divisa a vastidão do campo que semeias.
Por isso são tristes e tímidas as pequenas janelas
- como as das celas -
que não ampliam,
antes atrofiam,
o que vai lá fora.
O tamanho da janela indica
quanta liberdade quer a casa,
a quanta luz almeja.

Janelas costumam ser transparentes
para que não obstruam o como de tudo,
para que não interfiram no espetáculo do mundo.
Por isso as janelas,
caprichosas,
preferem o vidro de sílica pura,
não-chumbado.
(Porque) o vidro crivado de sais
que lhes dão cores
esconde uma vontade danada de sobrecolorir as coisas,
um desejo violentamente humano de tingir o mundo.

Mas,
então,
já não são janelas:
são filtros às avessas.

De fora pra dentro
a janela esclarece
o íntimo de quem mora,
o grau de claro ou escuro
da beleza a que aspira,
o ar que respira
e o vento que lhe sopra.

A janela seleciona a paisagem,
aponta a beleza eleita
por quem pensou o furo
que lhe dá existência.

Olhar para uma janela,
alheadamente,
é uma ofensa ao que ela oferece
e uma confissão de estreiteza.
Fitar uma janela
é sentir o espanto que anima a vida;
lembrar-se
do encanto
que elas guardam.









Alexandre Costa é professor do departamento de filosofia da UFF. Autor de Heráclito: fragmentos contextualizados e A história da filosofia em 40 filmes (coautoria com Patrick Pessoa), entre outros. Tem atuado também no teatro, como escritor e dramaturgo; participou recentemente das montagens de Oréstia, com direção de Malu Galli e Bel Garcia, e Labirinto, de Daniela Amorim. Costuma engavetar seus poemas há anos.



















Nara Coló Rosetto é arquiteta e urbanista, apaixonada pela cidade e suas possibilidades. Tem como atividade preferida flanar pelas ruas sempre acompanhada de boa musica, caderno e marcadores.Vive em atividades paralelas, entre elas o Janelas de SP.


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