quarta-feira, 10 de junho de 2015

Poemas de Thiago Cervan






_do exemplo

voam
mais
berram
do que voam
as maritacas
que trafegam
livremente
e mesmo assim
rasgam a manhã
[o tecer pertence
aos galos]

transitam

mais
pagam
que transitam
os bípedes
que calam
suas matracas
perante as catracas
do rotineiro afã

as maritacas
voam porque
berram
e no berrar
incansável
acordam árvores
de raízes centenárias



_moenda

cana-de-açúcar - cano de metal - cana-de-açúcar - cano de metal 
pastoso melado goteja provoca erosões [na cavidade peitoral]
cana-de-açúcar - cano de metal - cana-de-açúcar - cano de metal 
pinga sofrido na terra forma crateras [e cobre com cal]
cana-de-açúcar - cano de metal - cana-de-açúcar - cano de metal 





_upp

e eles chegaru
sem espelho [nenhunzinho]
tudo vestido de preto. só
dava pra ver os zoio.
chegaru sem cruz, sem catecismo.
foi tudo limpo. sem engano.
só subiru e mandaru
todo mundo entrá e quietá e
oiá sem vê. no começo
teve uns que gostaru deles
acharu que ia melhorá. teve
quem deu até água [vê se pode]
e não é mais o geisel
o general
faz tempo.
e diz que o nome é
outro. acho que
antes terminava
com ura urro urra
agora
termina com cia
algo
assim
não sei.




_reificação

a fachada misteriosa da fábrica à beira da marginal taioca
fabricava assombrações em minha imaginação

seu terreno cercado por bambus
e lacrado por um espesso portão preto
parecia guardar enigmas indizíveis

anos depois descobri que não havia nada demais
naquele lugar: era uma simples fábrica de móveis
de tamanho mediano

de onde saiam sofás, camas, mesas
e trabalhadores exaustos em série




_ararapira

quase tudo fora deixado para trás
no vilarejo de ararapira

somente o cemitério centenário
continua a ser útil para os moradores
da região [ex-moradores do vilarejo]

quando precisam
enterrar um novo morto
cavam com suas próprias pás
as covas

& não são raras as vezes
que defrontam-­se com ossos & caixões
de mortos sem nomes, sem rostos

de mortos que precisam ceder lugar a
outros mortos

mortos que estão como
todos os mortos um dia ficarão:

esquecidos
e desgastados pela erosão
do silêncio daqueles que vivos
ainda ­ estão



_rondas

órbitas de óbitos
eclipses
& um buraco no negro



Thiago Cervan (1985) é educador popular. Natural de São Bernardo do Campo, atualmente reside em Atibaia/SP. Publicou dois volumes de poemas, Sumo Bagaço (Poesia Maloqueirista, 2012) e Dentro da Betoneira (Incubadora de Artistas, 2014). Também desenvolve experimentos poéticos em espaços urbanos usando técnicas como stencil, lambe-lambe e sticker. Estes poemas fazem parte do livro Dentro da Betoneira que pode ser baixado gratuitamente no link: http://pt.scribd.com/doc/265932236/Dentro-da-Betoneira-Thiago-Cervan#scribd




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