quarta-feira, 10 de junho de 2015

Relógios de Areia, peça de Maria Shu / Clocks of Sand, a play by Maria Shu










"JONAS

Misturado a restos de comida, eu navego em oceanos ilegais. Pisei fileiras de dentes, atolei língua e escorreguei noite adentro a garganta da baleia. Eu aceitei o compromisso. A viagem. A paga.

Não quis nem saber a rota.

Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?

Sou um homem pobre. Encharcado. Mastigado. Engolido. O cheiro podre das poças de água e a sensação permanente de mil cadáveres me fazem companhia o tempo inteiro. Aqui é oco. Eco. Eu arrasto silêncios. Se eu gritasse, a solidão voltava com mais força pra mim e me acertava feito um bumerangue. Ela é absoluta e negra.

Eu quero sair…e ficar.

(som de coaxar)

Tiras de céu me ferem os olhos e eu me perco em carne que não é minha. Carne oleosa. Viscosa. Gelatinosa. Sinto o mundo pelo interior do monstro marinho sacudido de tanto mar, de tanta camada-célula-mucosa-osso-músculo-epiderme…pele. O corpo agarrado às engrenagens, inundando-se em rubro-vida.

Dentro é escuridão.





(...)



"EU ENGOLI               

Engulo tudo desde que eu me entendo por gente

Já me mandaram engolir choro medo raiva decepção comida mal-feita vitaminas caseiras
COMO SE EU FOSSE UM ARTISTA DE CIRCO
COMO SE EU FOSSE UM ENGOLIDOR DE FOGO OU DE FACAS.

Já me enfiaram goela abaixo carne azeda de homem veias grossas sêmen vômito o pelo preso entre meus dentes de leite jatos de cândida o filete de sangue no canto da boca as sete águas
COMO SE EU FOSSE UM ARTISTA DE CIRCO
COMO SE EU FOSSE UM ENGOLIDOR DE FOGO OU DE FACAS.

por muito tempo eu engoli
lorotas
afrontas
injustiças
distâncias
pílulas
saliva
gato por lebre
SAPOS de todos os tamanhos
contra a minha vontade eu engoli
sem nunca fazer digestão
O estômago
era uma nau sem rumo
singrando num oceano de secreções."







baixe a peça completa aqui:  Relógios de Areia (versão original)







*******


"JONAH

Mixed with food scraps, I sail through illegal oceans. I stepped rows of teeth, jam on the tong and slipped into the night to the whale’s throat. I accepted the appointment. The travel. The payment.

I would not hear about the route.

                                                                              Who knows the path when is so great the space?

I’m a poor man. Wet. Chewed. Swallowed. The rotten smell of puddles and the permanent sensation of a thousand corpses keep me company all the time. Here is hollow. Echo. I drag silences. If I scream, the loneliness would come back harder to me and hit me like a boomerang. It’s absolute and black.

I want to go... and stay.

(raven sound - crow)

Stripes of sky hurt my eyes and I lose myself in midst of flesh that is not mine. Oily flesh. Viscous. Gelatinous. I feel the world inside the sea monster, whale shaken by the sea, so many layer-cell-mucosa-bone-muscle-epidermis... skin. The body grabbed to the gears, flooding in crimson-life.


                                                                                                                             Inside is darkness."






(...)


"I SWALLOWED 

I swallow everything since I can remember

They told me to swallow weeping fear anger disappointment sloppy food homemade vitamins
AS IF I WAS A CIRCUS PERFORMER
IF I WAS A FIRE OR KNIVES SWALLOWER.

Through my throat and down was forced sour flesh of man, heavy veins, semen, vomit, the hair in my primary teeth, jets of cum, the trickle of blood on the corner of the mouth, seven seas
IF I WAS A CIRCUS PERFORMER
IF I WAS A FIRE OR KNIVES SWALLOWER.

for a long time I swallowed
fibs
outrages
injustices
distances
pills
saliva
a pig in a poke
CROWS of all sizes
against my will I swallowed
without doing digestion


                                                                                           My stomach was a rudderless ship"


download the whole play here:   Clocks of Sand (english version, translated by Fabiane Fannrra)











Maria Shu é baiana, professora e dramaturga. Assina a dramaturgia dos espetáculos Cabaret Stravaganza, Cia de teatro Os Satyros, direção de Rodolfo Garcia Vasquez; Giz, com a GAL (Grupo Arte Livre), direção Marcelo Valle; Mofo, direção de Alex Araújo, encenado nas Satyrianas. Foi assistente de dramaturgia da peça Território Banal, de Marici Salomão. Sua peça Ar Rarefeito ganhou primeiro lugar do Concurso “Feminina Dramaturgia - Prêmio Heleny Guariba” (3ª Edição), pelo Núcleo do 184, da Cooperativa Paulista de Teatro. A peça Relógios de Areia foi publicada na Revista A[L]berto - #especial Dramaturgias.




Maria Shu is a teacher and playwright from Bahia, Brazil. She is the author of the plays Cabaret Stravaganza, Cia de Teatro Os Satyros, directed by Rodolfo Garcia Vasquez; Chalk with the GAL (Grupo Arte Livre), directed by Marcelo Valle; Mold, directed by Alex Araujo, staged in Satyrianas. She was assistant dramaturgy of Território Banal by Marici Salomão. Her play Thin Air got the first place in the "Feminina Dramaturgia - Heleny Guariba Prémio"  3rd Edition contest, by Núcleo 184, from the Cooperativa Paulista de Teatro. The play Clocks of Sand was published in the journal  A[L]berto - #especial Dramaturgias.




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