domingo, 26 de julho de 2015

"Corpo Nulo", Sara Sintique

Foto: Mauro Angeli






Revoada



amanhã ou hoje
voar ao sol
para sentir o calor
sobre os ossos
esse que eu não encontro
em parte alguma
e que a ausência não consola.








                          Poema, para uma noite




            quase me tornei solúvel
            quando no toque macio dos dedos
            as nuvens se despediram do céu
            e se quiseram nesse aconchego
            nos servir de cobertor.







Promessa



há três dias
todos esses galhos
me prometem uma dança
mas se tento um balançar
ainda que pequeno
são as raízes que me tomam pelos braços
e que me querem no abaixo desse chão. 









Nulo, o sentir

no lugar
aqui
estamos
a coser panos velhos.

sinto o teu cheiro a exalar das costas

pelos cabelos

tu te deitas ainda

e eu te apalpo as coxas,
as pintas,
o ânus.

tu

agora só imagem
tu ainda me chamas e me olhas
como se o cigarro apagasse das janelas.

e quando pões a boca sobre os seios

os sinos das cidades,
em fragmentos,
se derramam.





poemas retirados do livro Corpo Nulo de Sara Sintique, que faz parte da Coleção Mormaço, Editora Substânsia :)





Sara Síntique é atriz, perfomer e poeta. Nascida em Iguatu, CE, mudou-se para Fortaleza aos dez anos, onde reside até hoje. Sara é graduada em Letras Português - Francês pela UFC e é mestranda pela mesma universidade também em Letras, estudando em Literatura Comparada a obra literária e cinematográfica de Marguerite Duras, com foco no corpo e na memória corporoal. Estabelece, ainda, um diálogo de paixão com a fotografia artística, para a qual performa e modela.

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