quinta-feira, 9 de julho de 2015

Poemas de Maria Giulia Pinheiro






À Ana C.


Eu odeio, odeio seus cigarros. Odeio o jeito como você fuma, odeio sua fuga, odeio até quando você pede pra eu fumar com você, essa tentativa ridícula de me aproximar do seu ritual, disso que é tão seu, tão irritantemente seu, odeio, odeio seus cigarros, todos eles, odeio cada denúncia que eles fazem na sua boca, odeio como seus dedos seguram os cigarros, odeio o fogo e o fascínio dos seus olhos, odeio o cheiro nas suas coisas, odeio a sua saudade, odeio suas mãos tremendo longe deles, odeio seu ciúme dos desconhecidos fumando, odeio você sair a hora que for para encontrá-los, odeio seus cinco minutinhos, suas desculpas, odeio você arrumar tempo para eles, odeio eles estarem sempre por perto, na sua mente, no seu peito, em cada célula do seu dia, odeio a sua solidão com eles, a sua intimidade, eu odeio, odeio o seu silêncio e devoção, essas horas dedicadas a eles, odeio o espaço deles nas suas coisas, nos seus dias e o jeito como eles fazem você conhecer pessoas, odeio até isso que eu podia gostar: odeio o seu pudor em não apresentar-se fumando à família, odeio até essa sua decência, odeio por causa dessa cara de prazer insuportável com que você fuma escondido, parece que faz de propósito, que raiva da sua cara, odeio você provar a vida neles, odeio você querer morrer por eles, odeio você chupá-los distraído, odeio a sua necessidade, a urgência e também a sua convicção de que os quer por desejo, odeio você negar o vício óbvio, negar o costume, nem reparar no costume, odeio você só perceber que está há tempos com eles quando lembra histórias antigas - odeio vocês terem tantas histórias antigas - odeio você não largá-los por nada, odeio eles serem sua paz, odeio como vocês são confidentes, odeio a amizade de vocês e você os exibindo em festas, bares e ruas, como se fossem algum triunfo só seu, como se lhe pertencessem somente, eu odeio, odeio a sua fidelidade, odeio todos, todos os seus cigarros, odeio a inveja que sinto quando penso que nunca serei tragada com tanta violência por você, eu odeio, odeio não ser os seus cigarros.




Trilha


A calma dele
versus
a minha obsessão.


A cama dele,
versos
da minha sala.


A mania dele de consumir o amor
como comida do natal que ainda passeia na geladeira em março
contra
consumado
o meu desejo de chupar paixão feito miojo,
sem nem louça pro dia seguinte.

Ele é noir,
eu sou Klimt.

Um dia a gente se encontra
num meio fio da vida, na Vila.
Ele de havaianas,
eu de alto coque.



Ele diz qualquer coisa sobre escolhas,
eu faço um roque,
e, devagarinho, o crédito sobe.





E foi assim que meus vinte dedos viraram baratas:



Foi no dia em que minha casa foi infestada.
Todo o chão,
mil delas,
dois mil olhos,
seis mil patas.

Fui arrancando as asas,
uma a uma,
elas se refizeram,
tal qual uma teia
daquele outro inseto.

Elas voltaram a voar por mim.
Não importava quantas vezes eu tentasse lhe arrancar as asas.

Apareceram quinhentos ratos, então.
Eles comeram as baratas.
Eu lhes cortei as barrigas.
Mais baratas nasceram dentro deles.

(Do que é feita a pele, afinal?)

Elas subiram pelas paredes,
Devoraram os ratos mortos abertos,
cobriram o teto por completo.

Eu me expus a elas, entregue.

(Ela cresce)

Abri meus braços, minhas pernas, minhas bocas, meus olhos, meus narizes e cus.
Elas não entraram em mim.

Rejeitada,
vi como me olhavam e andavam e voavam,
como eu.

Apaixonada,
quis me tornar a outra
que já era,
sem que quisesse ser.

Arranquei os meus dedos,
mas não soube me recompor em teia,
e já não podia mais matar-me nada.

Vinte delas desfiaram até mim,
vindas dos cantos mais diferentes da sala,
compaixão de inseto cura.
Encaixaram-se nos meus buracos,
morreram,
pele.





 Afrodisíaca - Videopoema






Maria Giulia Pinheiro é autora do livro “Da Poeta ao Inevitável (Ed. Patuá/13) e dramaturga dos espetáculos “Mais um Hamlet”, “Alteridade” e “Bruta Flor do Querer”, em que também assina a direção. É membra-fundadora do grupo teatral Companhia e Fúria, em que atua, dirige e escreve.