domingo, 23 de agosto de 2015

A arte de Lia Testa


mergulho 7 |Desenho_ Lia Testa|


maya

é bicho e gente na sua dança
batuqueira bandalheira roda gira move
é gente e bicho na sua dança
tem cheiro de salmoura
é gente gente na sua vadiagem
mata come cava colhe
miríades de beleza maquiada
é bicho que come bicho
tamborilando no couro na carne
encarnada bate bate bota fora a fala
de ba.lan.gan.dãs
fitas folhas figas uma flor lilás na cabeça
santos nas pulseiras a tilintar
berenguendéns berenguendéns berenguendéns
para olhos negros e negros de cor
para bardos lascivos ver balançar
corpo que rodopia para e rodopia
com véus porque é gente e bicho e dança



admirável predador  | Colagem_ Lia Testa |



perscrutas os meus silêncios
os meus não-ditos
as minhas palavras trajadas à escafandro
o plural das minhas janelas
as possíveis margens dos meus rios
as minhas falas des
o meu mergulho, o meu vôo, as minhas asas, as minhas guelras,
que sobem e descem
na beira do pouso das nossas conversas
um peixe que pesca a minha rede
um novelo que desenrola o gesto da minha língua
fio a fio
fundo na minha composição nós
a bombordo a estibordo
olhando a minha popa
olhando a minha proa
ali ai aqui lá acolá
quiçá traçando barlavento e sotavento
sopra e come as minhas letras
o meu rastro, capitão





above the water or dolphins communicate | Colagem_ Lia Testa |




: palavras se incendeiam
no ranger dos dentes:
: palavras se incendeiam
no roçar das horas:
: palavras se incendeiam
no rasgo do meu ventre:
abrasiva mordida
nesse lugar do não-dito
língua de oco osso sem fundo
uma constelação de linhas
uma fala que fode
e a boca goza gostoso
por dentro por fora
pelos lábios pelas guelras pelas ventanas
valia
per si
viva
a
bailar-asi cantada
na corporificável
dança do ruminar
a fala-grito
a fala mansa
a fala de merda
a fala rabuda
a fala de pau
a fala fodida
a fala de pedra pluma pimenta & a do caralho a quatro 






palavra_presa | Colagem _ Lia Testa|




encarar o difícil do branco
a coluna vertebral do branco
aos poucos entrar em suas camadas
saber da sua vasta temperatura
escutar suas nascentes sentindo
a erupção lançada o quente o vapor
o ar cravando a língua e verbar
o jorro do negro do nanquim
requerente de uma hidrogeologia
de subducção deslizável para iniciar
o alastramento oceânico fraturar-se
desaparecendo em todas as direções
opostas antepostas afastando-se
na vizinha da superfície jaz morta
branca e bramindo de uma outra crosta
nem sempre linear escarpar os vales
ativar os pontos os açores as cristas
o grande rio o mar vermelho
vertendo focos sísmicos choque
nas fissuras lavas vulcânicas
elevar a pressão e ver a subida de
um jato violento atingindo os buracos
negros as caixas pretas os espaços de
um camaleão bombeado pela expansão
do universo de um desce-sobe
um Big Rip ou grande rasgo no tecido
ex-branco uma quinta-força dentro
dos aglomerados das letras
a esparramar as micro-ondinas
solares quem empurram o poeta e o leitor 







Lia Testa é autora do livro de poemas Guizos da carne: pelos decibéis do corpo (Publicações Iara, 2014). Como artista visual, participou do “XII Circuito Internacional de Arte Brasileira na Áustria, na China e na Tailândia” e de exposições e mostras de arte no Paraná, em Goiás, em Brasília e no Tocantins. Doutora em Comunicação e Semiótica (PUC SP), é professora de Literatura Portuguesa, Brasileira e História da Arte, na Universidade Federal do Tocantins (UFT).

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