sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A escritura do poeta coreano Choi Seung-Ho


Choi Seung-Ho (1954) nasceu em Seul, na Coreia do Sul. Seus poemas estão atravessados por uma visão mística - com influência de religiões orientais como budismo e taoismo, sem que isso signifique uma adesão a elas. Sua poética apresenta uma visão contundente sobre a sociedade moderna industrial. A poluição e a decadência em contraste ao mundo natural e animal povoa seu imaginário, mas não se sugere a redenção ou o refúgio pacífico na natureza como possibilidades. 


Estes poemas aqui apresentados foram postos em português por mim, a partir da tradução para o espanhol, encontrada em Autobiografía de hielo (Bajo la luna, Buenos Aires, 2010). A tradução de uma tradução é sempre temerária, mas se justifica pela inexistência até agora de traduções para o português diretamente do original. Fazemos votos que em breve os leitores de língua portuguesa possam contar com uma tradução dos seus escritos a partir do idioma de origem.

Marcus Groza




Cobra

se me ponho a pensar na cobra
que golpeei com uma pedra e joguei no lodo
enquanto caminhava um dia pelos limites do arrozal
me parece que a pedra era uma Sagrada Escritura
também me ocorre a confissão de um poeta africano
que ao ser abandonado por sua amante fugiu para o deserto
e com uma pedra golpeou seu membro viril

ainda que o Serpentário esteja perto
quem levará as serpentes mortas a essa constelação?
os santos consideram pecado
o prazer de arrastar-se no lodaçal

a serpente que não conhece o karma
penetra deslizando-se no pântano
o seu rebuliço faz ondular as plantas aquáticas
e a oscilação se estende por todo o pântano
logo a serpente desaparece subitamente 
e cairão em linha reta os ardentes raios do sol 
fazendo que a serenidade do pântano ferva




A estátua de Buda que medita seminu não tem pensamentos profundos

não tenho alavanca
nem ponto de poio
nem Deus nem Buda podem ser alavancas minhas
estou só
por não ter onde me apoiar
me apoio em mim mesmo
esse eu é inseguro
mas me apoio nesse eu
estou só
as agonias profundas não podem ser compartilhadas
minhas agonias
são mais profundas que a estátua de Buda que medita seminu
a estátua de Buda que medita seminu não tem pensamentos profundos
também não tem pensamentos levianos
espaço de vazio total
é bela a estátua de Buda seminu
essa beleza
a levo aqui dentro comigo
mas não a vejo porque não consigo encontrar




Terreno Baldio 


pode ser que a tranquilidade indestrutível
seja o senhor que domine o terreno baldio
ainda que pareça vazio o terreno baldio
sempre está cheio de qualquer coisa
no terreno baldio está dormindo o vento o vento que redemoinha
de quando em quando o vento
arremessa sementes cobertas de penugem
e faz florescer o terreno baldio
quanto ao que envelhece e murcha
o terreno baldio não diz nada
oferece a terra com sua
presença vazia aos que passam

nos dias livres
os lagartos atravessam o terreno baldio
ainda que o pássaro passando deixe ali suas pegadas
não vão se manter por muito tempo
a areia muda de postura com as gotas de chuva caindo do céu
o terreno baldio apaga os rastros
pode ser que a tranquilidade que não deixa rastros
seja o senhor do terreno baldio


O caminho do boneco de neve

que o boneco de gelo derreta
significa que o boneco de gelo se queima
que se queime
significa que o boneco de gelo está se convertendo em cinzas

a cinza é água
branca cinza
a cinza que não pode tornar-se mais branca é água
e no riacho flui cinza branca

o boneco de neve toca o tambor-aquário
flui pelo rio o mar e a Via Láctea

que flua
significa que regressa
e que regresse significa que em algum lugar
pode permanecer por muito tempo



Bacalhau desidratado
  
de noite em uma barraca de alimentos
entre o pó assentado com o tempo
cobre-se mais um dia com a sujeira das mãos que tocam
esperam sem remédio
os bacalhaus desidratados
um pelotão de bacalhaus desidratados
pendurado com uma linha

me refiro às cabeças perfuradas pela morte
umas dezenas de línguas
tão duras como as pedras 
creio ter falado dos mudos em suas tumbas
e de pessoas que padecem de enfezamento das palavras
olhos estripados e secos
nadadeiras endurecidas dos bacalhaus desidratados
pensamentos que parecem troncos de madeira
pessoas que parecem troncos de madeira sem brilho
pessoas que levam no coração nadadeiras frescas
e não têm aonde ir nadar

no momento em que penso
São uns infelizes!
subitamente os bacalhaus desidratados abrem amplamente os olhos
Você já pode ver, você também é um bacalhau desidratado,
é um bacalhau desidratado um bacalhau desidratado!
e continuam a grunhir até ficar com um zumbido nos ouvidos

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