segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A voz do Kaos na poesia de Demetrios Galvão


nas curvas da lua minguante


i

quando delira o peixe

penso design líquido
rabisco efêmero
brilho lírico

ii

quando fisgo o peixe

o anzol me fere
a memória esvazia
no intervalo silente

iii

quando me esqueço

as águas deitam raízes
o peixe se retira
nas curvas da lua minguante
.

vértebras de uma coluna metamórfica

i

o peixe amarelo

devora o caroço estático
da noite que traz
na mochila
o azar do dia inteiro
o porta-voz-do-kaos
anuncia uma nova ordem
.
 ii
encaro
três olhos negros
de sementes venenosas
arremesso
uma isca de cor no vão
dos desejos da retina-telescópio
pesco
hálito gostoso
.
 iii
carregando um
filtro-dos-sonhos
no pescoço
heráclito
devasta
o grelo do ocidente
montado
no seu ciclone-devir
cria uma
cosmologia invertebrada
com os ossos
de cada lua minguante


.
a cordilheira que nos invade
ao som do clube da esquina


jubilosa figura ametista
teus lábios são territórios carnívoros e neles
traduzo tua forma de ser no balanço da casa:

– língua de dois conjugados
jurados até os dias últimos
pacto de selo-carne
ungidos em unidade rock
nos pátios da visão devassa –

invado teu quarto secreto
me alio ao venenoso do teu signo
decifro a temperatura do teu pescoço-abismo 
envio envelopes com serpentes sedutoras.

tua música tem fome de elaborações murmurosas
os miados são consequência de agrados sigilosos
marcamos no calendário um truque contra o tempo
num lampejo súbito libertamos desatinos circulares.

fulgurantes e contaminados, nos fazemos cordilheira
nossa essência réptil ... nossos rins vegetais ...
transfiguramos a mata densa em lençóis brumosos
... brotou uma orquídea lilás no alto de nossas virilhas.

naquele cemitério de asas
roubamos um voo que estava encostado
desenhamos raízes aéreas para o pouso
saltamos sem medo sobre os ombros rochosos.

.

o carteiro

hoje o carteiro entregou infâncias na casa do poeta
e disse que a espera faz parte da gestação.

hoje o carteiro trouxe uma matéria não repetível
e afirmou que sua feitura não passa por oficinas.

hoje o carteiro rezou uma caminhada longa
e foi buscar postais de um mundo imaterial.

hoje o carteiro fotografou ruídos feudais
e os entregou em recantos sem número.

hoje o carteiro endereçou urgências para corações sem identidade
e explicou que a entrega é pensada no silêncio oco do escuro.

hoje o carteiro plantou esperanças em um novo endereço
e levou tudo em um grande baú cintilante.

hoje o carteiro inventou louças para um maestro
e disse que eram novos instrumentos que lhe chegavam.

hoje o carteiro embalou horas maduras
e uma família inteira fez farra com o presente.

hoje o carteiro arrematou aromas antigos em um leilão
e apontou para as despedidas se abalando nas portas.

hoje o carteiro acordou de mau humor
e entregou infernos retirados de uma bolsa incendiada.

hoje o carteiro quis ser carta e ao invés de entregar coisas
preferiu se lançar às acrobacias da noite.

hoje o carteiro amanheceu de ressaca
e conversou com as esquinas e descobriu os abscessos maquiados.

hoje o carteiro sentou-se com o poeta para tomar café
e prometeu que daqui a uns meses lhe trará o inesperado.



Demetrios Galvão – habitante da cidade de Teresina é poeta, professor e historiador, com mestrado em História do Brasil (UFPI). Publicou os livros de poemas Insólito (2011) e Bifurcações (2014). Participou do coletivo poético Academia Onírica e foi um dos editores do blog Poesia Tarja Preta (2010-2012) e da AO-Revista (2011-2012). Tem poemas publicados nas antologias Massanova Literatura (2007) e Poematologia – os melhores novos poetas do Brasil (2012). Atualmente é um dos editores da revista Acrobata.  
e-mail: demetrios.galvao@yahoo.com.br

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