segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Versos de Gustavo Terra


Equador dos espantos


Sondando o improvável 
em latitudes sombrias
recobro antigas visões
e dialogo com um bardo orelhudo
sob frenético pulso intuitivo

disse-lhe que o mar é uma estrela
dançando no centro de um
céu naufragado
                               e ele replicou com o choro insano
                                que putrefa o líquen nas carruagens
                                                                                             da noite

- a solidão é uma porta de
mármore inrustida no
negrume das ruas
- nuvens de estopa
sepultam tomates no escuro                                                                                                  
- o lírio silvestre engoliu
o paletó da terra!
        e nesse instante o vento
        cuspia capetas de espuma
        na relva fria

peixes vadios ganhavam os
ares beijando estátuas de enxôfre
               com pés de sino vertendo
                                                                               rosas

mergulhei na penumbra e
              em um segundo (contemplando eras)
                                                              renasci do musgo



                   
Be bop a Kerouac

Pobre Jack 
sua respiração não acompanhou o tempo das vagas perenes 
seu fraseado e fôlego
seu pulso sua alma voaram longe sempre longe da vida 
mesmo que valsasse nela ao seu jeito elétrico 
de Lowell pra NY, daí pra Tanger 
Frisco pra Hazomeen mirando Walden
dos salmos aos sutras
dos subterrâneos pra estrada
dos picos (de consciência e montanha)
para o lago inerte do álcool em sua inépcia em meter de vez
o pé na estrada sem caronas e de uma só divisa
apenas vagabundo do Dharma
adicto da solidão




Desde Homero...
Desde Homero
até o filho fátuo que inspira-me do limbo escuro
Calíope cospe insensata
haikais da sacada
e nos cria
estalos de chuva imaginada
nos confins da fome

...e não me basta a relativa barganha do verso
minha matemática não sustenta os caminhos desta sombra faminta
os desejos de um vazio andante
as miragens de uma sede infinita
viver é blefar
até o último instante









Nascido em Jacareí, SP em 1972, mora em São José dos Campos desde 1992. Publicou poemas e haicais em periódicos de literatura dessa cidade durante a década de 90. Em novembro próximo lançará o livro Cantata dos Ventos, uma antologia de poemas escritos nos últimos 22 anos. Desde 2002, trabalha como Agente Cultural na Fundação Cultural Cassiano Ricardo.

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