quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Porus-Poema _ Cintia Luando






minha Potosí invadida
pra sustentar teus olhos claros
minha pele morena em tua cruz de malta.
há dias que o poema estanca
atravessado como uma Palestina





II


meu coração como um gado
não merece um poema,
não se dedicam palavras aos bois.
sonhando-se livre, aperta-lhe o cerco
arame farpado e pode pastar
até onde o desejo alcança.

deito-lhe a noite
céu distante e clarins mais
não lhe afeta o verde inóspito.
sozinho ele chora, contrariando pensamentos
- um boizinho sente o bumbar -
e inventa canções para pastar com as horas.

meu coração retumba e tomba
corno mais - cornucópia linda
entre frutas e flores:
chifre afiado e mato mesmo!
saia da frente pra eu pisotear cercados
avançar terreiros, invadir quintais.

viva a manada de um boi sozinho
que não sonha a grama verde que domina o mundo
mas que sustenta um vazio sem fundo que vai
onde um coração malhado não escolhe
preto no branco, branco no preto.


e mentem uma cor tão cinza
 quando o seu sonho cardiológicos
é technicollor por freqüência afetiva




XVI


meu amor, se eu precisar parar no meio da estrada
você jura que me atropela?
atravessa  o tempo pra mim e me encerra?

quando você abriu a porta da geladeira:
patê defumado era meu
coração ali dentro
 esfumaçado de frio

- bem como o conheceu, lembra-se? -

então, da próxima vez que for cortar as cebolas
me atravessa a faca antes de começar o choro?
e se for muito difícil pra você, me põe pra dormir
e não me acorda mais.




foto_ Rany Carneiro


Cintia Luando
, poeta, compositora e atriz, é autora do livro “Palarvore" (2012 –  Azougue), contemplado pelo Edital “Novos Autores Fluminenses”Integrante da banda “Os Desmantelistas” (Composição, voz e violão)atuou recentemente nas montagens teatrais “Metamorfose” e “Moby Dick”. Também atua como arte-educadora e contadora de histórias.

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