quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Dois poemas doloridos de Vanessa Guimarães


Nome de Buraco

quem vê céu não vê coração
não vê a angústia descendo a rua
na respiração do menino com que você cruza todo dia
quem vê céu não vê coração
não aprendeu a desmembrar perfeitamente as sílabas 
dos termos que dizem ulceração e alegria

por isso quando alguém sugere
fazer alguma coisa doida qualquer
por improvável que seja
ou besta como um banho de chuva em dias de sol
tenta responder sim e complementa
com um remendo de história

e plurais de primeira pessoa

quem vê céu não vê coração
e não adianta chorar duas semanas
não adianta tomar veneno nem ligar pra alguém
com quem você não fala faz tempo
estão zeradas as possibilidades de antídoto
quem diz depressão
diz um nome de buraco
dos tantos que cabem
na poesia e na paisagem



Poema Emo

só de manhã é possível
ser realmente triste

se você quiser saber se está triste
é só reparar
se quem acorda é você
ou se é a sua tristeza
que acorda primeiro

pois antes da fogueira
tinha o ar
e o incêndio era algo previsível

só de manhã é possível
ser realmente triste

ao longo do dia
se constrói
ao redor da ferida
um biombo de sensações novas
e a angústia se confina
entre as frestas
quando o ar já circula

de noite as sombras
a fumaça os reflexos informes
só dão margem a tristezas inventadas

só de manhã é possível
ser realmente triste




Vanessa Guimarães (23 anos) rabisca versos em guardanapos pelos bares de Assis - SP, onde nasceu. A cada lua nova faz pequenos rituais dedicados às Deusas. Estuda Psicologia, mas não confia na cura.



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