segunda-feira, 25 de abril de 2016

àspero e fuga - narrativas de Viviane de Santana Paulo




Desencouraçado



...curvou-se tentando proteger a barriga com as mãos, outro soco acertou-lhe o queixo atirando-o para trás, seus braços se abriram para que o corpo não perdesse o equilíbrio e desabasse no chão. Antes que o outro lhe acertasse mais um murro, seu punho fechado atingiu forte e ligeiro o olho direito do adversário.

Mas este se voltou munido de raiva renovada e o murro atingiu-lhe o nariz espirrando sangue, o chute veio simultâneo e curvado ficou fácil para o adversário lhe segurar firme a cabeça e socá-la brutalmente contra o joelho dele. Depois ele foi jogado no chão e antes do adversário fugir (não foi bem uma fuga, mas um displicente sair cambaleando), ainda distribuiu-lhe chutes por todas as partes do seu corpo.

O corpo.

O corpo ficou largado no cimento, o nariz partido sentindo o cheiro do sangue, a boca com gosto do vermelho e do cinza sujo e duro, por todas as partes uma dor ossuda. O corpo desencouraçado encolhido, o ouvido colado na calçada, grudado na superfície fria, sentia a vibração da cidade: ferro batendo no ferro (em suas entranhas passava o metrô).




Com juba de leão




Com juba de leão e asas nas escápulas andava de bicicleta pelas ciclovias da cidade, tinha o vento desatado no rosto. Foi encontrar-se com ela, parada na margem da praça, com as mãos nos bolsos da calça jeans, sob a sombra de uma fagácea. No Biergarten sentou-se à mesa para tomar a cerveja na tarde bucólica e conversar futilidades. Ela era de sorrir o seu perfeito sorriso oco de monotonia diária. Sem a paixão dela por ele, não saberia o que é ser dinâmico e diverso. E suas patas de leão tornaram-se pesadas, querendo ultrapassar fronteiras, abater a zebra do cruzamento na esquina. Ele era apto a criar enigmas no cotidiano que ninguém se dava ao trabalho de desvendar. Só ele. Não que desejasse algo de surreal, simplesmente não era de se satisfazer com a mesmice, com o estarrecido. Ao ir embora lhe adveio um desejo irrefreável de largar a bicicleta amarrada na árvore e sair voando.





Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros, Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Em parceria com Floriano Martins, Em silêncio (Fortaleza, CE: ARC Edições, 2014) e Abismanto (poemas, Sol Negro Edições, Natal/RN, 2012). Participa das antologias Roteiro de Poesia Brasileira - Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e da Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007). Publica poemas em revistas e jornais entre eles, Suplemento Literário de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (México). Em 2012, participa do VIII Festival Internacional de Poesia em Granada, Nicarágua. Vive em Berlim.


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