terça-feira, 19 de abril de 2016

Delírios Diários, de João Pedro Liossi



3 
Clara ontem disse que poema não é desenho. Não entendi a colocação e Clara riu derrubando dentes. Hoje Clara está colocada longe, alhures. Compro um livro de colorir e passo pelo tempo como um tetraplégico. Alguém está sempre chegando e chegando. Espero alguém terminar de chegar.


4 
Massageio como uma puta a barriga do gato, um monarca gordo que ronrona. Levo a mão ao rosto e armo as duas bombas nos olhos. Massageio como uma puta a barriga do livro. Meto as mãos na boca e lambo os cantos das unhas. Amo as bombas plantadas nos olhos.


9
Misturo as máscaras, uma atrás da outra, encavalo-as. Os cavalos da vizinhança relincham desesperados porque não me reconhecem.  


24
Encontrei a carta que não foi enviada (Nara agradece). Mosquitos e formigas ameaçam. Talvez seja a hora de queimar os insetozinhos antes que tomem toda a extensão do quarto.


26

Dou voltas pelo bairro embarreado e me perguntou se Nara existiu. Não, EU não existi, respondo de antemão antes que o telefone morra na lama. Quem te escreve? Quem me escreve? O telefone morre na lama. Embalo os bichos numa caixinha miserável. Nara merece.




João Pedro Liossi (1996) reside no interior de São Paulo, em São José do Rio Preto. Estuda Letras na UNESP, além de ser músico e poeta. Em 2014m foi vencedor do "Prêmio Paulo Leminski", concurso de poesia realizado no campus da UNESP de São José do Rio Preto (SP), e, em 2015, teve poemas publicados nas revistas Gente de Palavra e Raimundo. Publica no blog: liossi.tumblr.com Contato: joao.liossi@gmail.com



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