segunda-feira, 18 de julho de 2016

Poema inédito do livro “As solas dos pés de meu avô”, de Tiago D. Oliveira


um

Atrás de mim, porém, numa rajada fria,
escuto o chocalhar dos ossos,
e um riso ressequido tangencia o rio
(T. S. Eliot)

é pelos pés de meu avô que entendo a vida
morto de cima de nove décadas esculpidas nas rachaduras
das solas duras naquele mesmo quarto de estreitos e sonhos
caminho nos cascos a figurar seu povo
na herança do sangue no olho
que o eco de sua voz ainda vive
é pelos pés do morto numa cama de pau
que vejo a luz do dia chegar
e o choro e a reza e a morrinha de paz que fica
meu pai chegou à capital menino de domingo a domingo
perdeu o que hoje não consegue mais lembrar
veio para tentar a vida e ficou: foram as primeiras frases
que li naquelas solas duras de pés juntos como os de quem reza
era o título de um texto que continuava – depois fui eu a partir para Lisboa
em busca da manilha e o libambo que idealizei
ecos em silêncio vindos de outra existência idas de 1800 ou não
ou de um call center atendendo às ligações e sendo mandando de volta
a cada três minutos recebendo ecos de outras partidas
quando meu pai veio para a capital tinha a metade de mim
a outra descobri quando retornei de Portugal
há mais ou menos quarenta anos ele chegava
após quatro eu voltei para o Brasil
as rachaduras nas solas duras de meu avô
escreveram estas palavras também
até chegar ao rio passamos por três cobras
não sabemos de onde é que o veneno espreita
tomam conta da estrada conhecem o caminho
provocam o medo e o desejo na fronte
a última vez que estive com o meu avô
cruzamos com as cobras e nos banhamos no rio:
esta poderia ser a epígrafe para qualquer sertanejo







Tiago D. Oliveira, de Salvador-BA, professor e pesquisador, estudou letras na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e na Universidade Nova de Lisboa (UNL). Tem poemas publicados em portais, revistas e jornais especializados como Cultverso, Cronópios, Hyperion (UFBA), Escamandro, Enfermaria 6 (Portugal), Subversa, Avenida Sul e Jornal Livre Opinião. Em 2014 teve seu primeiro livro editado de poesia, “Distraído”. Atualmente desenvolve pesquisas sobre a ética dos afetos em formas breves na literatura portuguesa.

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