sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Interlúdio - Alice Rulli







Entre o peito e a garganta,
Implícito às cordas vocais e a voz que não sai,
Força-se a vir um verso incerto, falho.
Maltratado pelo cotidiano e a pressa dos carros,
Urgente como um grito na madrugada e ingênuo como aquele que por medo se cala.
E entre existir e eu mesmo,
Em decidir o que ser no curto espaço de tempo,
Visto a roupa avessa
E a familia mal planejada.
Visto a música errada
A profissão equivocada
E a filosofia refutada.
E sem saber decerto o motivo,
Movido apenas por simples e tolo instinto,
Pergunto aos ares de que valeu a escolha de tudo isto,
Se todo o caminho tomado traz consigo o mesmo destino,
Que sendo heroi ou vilão, oprimido ou carrasco,
Ganhas, de um e de outro, a pena de morte como saldo.
Mas o vento leve a bagunçar-me o cabelo,
O amarelo enferrujado das folhas de outono,
E as constelações distantes estampadas no céu,
Revelam-me que novo demais sou pra saber
E pequeno demais sou para compreender.



extraído do zine poético Azul, de Alice Rulli 


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