segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A Fêmea da Espécie - Rudyard Kipling (1911) [trad. Julia Debasse]


Quando o camponês Himalaio encontra o urso bravio
Ele grita para assustá-lo e ele sai do caminho.
Mas a ursa, se abordada, faz o camponês em pedaços
Pois a fêmea da espécie é mais letal do que o macho.

Quando Naj, a cobra, ouve passos humanos distraídos,
Ele se afasta para evitá-los, se assim for possível.
Mas sua companheira fica imóvel à beira do riacho
Pois a fêmea da espécie é mais letal do que o macho.

Quando os padres jesuítas pregavam aos Hurons e Choctaws,
Rezavam para se verem livres fúria das squaws.
Não temiam os guerreiros, mas as que se adornavam com penachos,
Pois a fêmea da espécie é mais letal do que o macho.

O coração manso do homem explode sem nada falar
Pois a Mulher que Deus lhe deu não é sua para dar;
Mas quando caçador e marido conversam, eles confirmam o fato –
A fêmea da espécie é mais letal do que macho.

O homem, urso de muitas formas – selvagem e verme por outro lado, --
O homem propõe negociações e aceita o combinado.
É muito raro ele negar a lógica de um fato
Até sua derradeira conclusão, em um arrematado ato.

Medo ou insensatez o impelem, antes de castigar os maus,
A conceder algum julgamento até ao pior rival.
Gracejos distraem sua fúria – Dúvida e Pena o deixam perplexo
E evitam que ele aja – para escândalo do Sexo!

Mas a Mulher que Deus lhe deu – cada fibra do seu ser
Prova que foi criada para um só fim e armada para o conceber.
E por este único fim, para que as gerações não extinguiam seu facho,
A fêmea da espécie deve ser mais letal do que o macho.

Ela que enfrenta a morte por cada vida em seu seio gerada
Não conhece dúvida ou da pena – não se distrai com fatos ou piadas.
Essas são só diversões masculinas – sua honra lá não vive,
Ela é a Outra Lei que rege, a única Lei que existe.

O poder que a engrandece, para além do qual não tem o que dar,
É como Mãe da Criança e Companheira do seu Par.
Mas, se na falta de Criança e Homem, clama o seu direito
Como femme (ou barão), e seu equipamento é o mesmo.

Ela se casa com seus ideais – na falta de laços de mais valor;
Suas crenças são seus filhos e Deus acuda quem se opor!
Não será uma discussão leve, ela imediatamente se aquece,
Lutando como se por marido ou filho, surge a fêmea da espécie.

Sem provocações ou ataques – ainda assim a ursa morde,
Palavras que escorrem, envenenam – a naja dá seu bote,
Vivissecção científica do nervo até a sua morte
E a vítima se contorce em angústia – como a squaw e o sacerdote!

E assim o Homem, covarde, quando em um concílio se congrega
Com seus bravos semelhantes, não ousa dar lugar a ela.
Onde, lutando contra a Razão e a Vida, sua mão maculada ele ergue
Para algum Deus da Justiça Abstrata – que mulher alguma concebe.

E o Homem sabe! E sabe que a Mulher que Deus quis lhe dar
Deve comandar, mas não governar – aprisioná-lo, mas não escravizar.
E Ela sabe, pois Ela o alerta, e seu instinto nunca é laxo,
Que a Fêmea de Sua Espécie é mais letal do que o Macho.


Trad. Julia Debasse




The Female of the Species - Rudyard Kipling (1865-1936)


WHEN the Himalayan peasant meets the he-bear in his pride,
He shouts to scare the monster, who will often turn aside.
But the she-bear thus accosted rends the peasant tooth and nail.
For the female of the species is more deadly than the male.

When Nag the basking cobra hears the careless foot of man,
He will sometimes wriggle sideways and avoid it if he can.
But his mate makes no such motion where she camps beside the trail.
For the female of the species is more deadly than the male.

When the early Jesuit fathers preached to Hurons and Choctaws,
They prayed to be delivered from the vengeance of the squaws.
'Twas the women, not the warriors, turned those stark enthusiasts pale.
For the female of the species is more deadly than the male.

Man's timid heart is bursting with the things he must not say,
For the Woman that God gave him isn't his to give away;
But when hunter meets with husbands, each confirms the other's tale—
The female of the species is more deadly than the male.

Man, a bear in most relations—worm and savage otherwise,—
Man propounds negotiations, Man accepts the compromise.
Very rarely will he squarely push the logic of a fact
To its ultimate conclusion in unmitigated act.

Fear, or foolishness, impels him, ere he lay the wicked low,
To concede some form of trial even to his fiercest foe.
Mirth obscene diverts his anger—Doubt and Pity oft perplex
Him in dealing with an issue—to the scandal of The Sex!

But the Woman that God gave him, every fibre of her frame
Proves her launched for one sole issue, armed and engined for the same;
And to serve that single issue, lest the generations fail,
The female of the species must be deadlier than the male.

She who faces Death by torture for each life beneath her breast
May not deal in doubt or pity—must not swerve for fact or jest.
These be purely male diversions—not in these her honour dwells—
She the Other Law we live by, is that Law and nothing else.

She can bring no more to living than the powers that make her great
As the Mother of the Infant and the Mistress of the Mate.
And when Babe and Man are lacking and she strides unclaimed to claim
Her right as femme (and baron), her equipment is the same.

She is wedded to convictions—in default of grosser ties;
Her contentions are her children, Heaven help him who denies!—
He will meet no suave discussion, but the instant, white-hot, wild,
Wakened female of the species warring as for spouse and child.

Unprovoked and awful charges—even so the she-bear fights,
Speech that drips, corrodes, and poisons—even so the cobra bites,
Scientific vivisection of one nerve till it is raw
And the victim writhes in anguish—like the Jesuit with the squaw!

So it comes that Man, the coward, when he gathers to confer
With his fellow-braves in council, dare not leave a place for her
Where, at war with Life and Conscience, he uplifts his erring hands
To some God of Abstract Justice—which no woman understands.

And Man knows it! Knows, moreover, that the Woman that God gave him
Must command but may not govern—shall enthral but not enslave him.
And She knows, because She warns him, and Her instincts never fail,
That the Female of Her Species is more deadly than the Male.

Nenhum comentário: