domingo, 11 de dezembro de 2016

As noites e noites de Michele Navarro


uma noite passeio


tínhamos

um tatame

inteiro

pela frente

trocamos

por um ti-ti-ti

trágico

no meio fio

dias atrás


uma back-space noite

essa noite escrevo volto apago escrevo volto apago escrevo volto apago. volto. eu volto. volto pra molhar as plantas e a chuva chega antes e me enxota


uma noite a meia noite

chego

sem jeito

às dez

com sotaque

mineiro

ao revés

me ajeito

sem ponto

às onze

entorpeço

a teus pés

confessa

de cara

desejos

com acento

agudo

sem gênero

com gíria

lascívia

a cem

por cento

à meia-noite

conversa alheia

dispersa

...

diz "amoR"

com éRRe

Rasgado

Re-veRsa


uma noite pró-nomes

eu/ela êne, conectada e prostituída debruçada sobre a inclusão virtual já vencida, eu/ela êne excluída de sua/minha hippice forjada fornadas de hojes - selfies instantâneas desde ontem forjará filtros. dispositivo impositivo touch. aplicativos da vida moderna. eu/ela êne filtrada em anabéla éla pronta para qualquer personagem, por exemplo, Mefisto, aquele do fausto. eu /ela êne-éle mito, invisto em vestes. nós (,) cegos.
Michele Navarro é poeta, bailarina, atriz e professora. É do A, B e C de São Paulo. Fez maternal, pré-primário, primeiro, segundo e terceiro grau. Depois seguiu em formações livres enquanto esses termos todos mudavam de nome. Tem 37 anos, é integrante da Cia Les Commediens Tropicales, do Corpo Docente da Escola Municipal de Iniciação Artística e da coordenação editorial da Editora Lamparina Luminosa.  Em fevereiro de 2016 publicou seu primeiro livro de poemas “noite uma.a.uma”.  É dada a misturas por natureza e conjunturas. Já pariu um ser humano, já publicou um livro, nunca plantou uma árvore.

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