quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Para Iza de Nina


Zizi, continuamos aqui.

No dia seguinte do seu velório, apareceu nas redes sociais "Morre aos 30 anos..." Eu tive raiva de ver aquilo. Uma raiva sem sentido. Mas era como se eu não quisesse que as pessoas noticiassem sua partida assim tão rápido, de maneira tão desabrida. Pra mim, isso só poderia ser pronunciado aos sussurros.

Hoje faz três meses. Continuamos aqui. Um pouco desarvorados, não sei bem se mais que antes. Mas certamente mais tristes, mais distantes daquela nossa alegria inventada a muito custo. Estamos aqui e sua risada é sempre muito presente. Seu desdém para a nossa gravidade de levar as coisas muito a sério também. Rio e choro com essa sua presença-ausência. O nosso vai-e-vem desenfreado continua e você continua conosco. Não sei por que estou fazendo esse post. É uma tentativa de sussurro talvez. Ou deve ser porque as coisas andam cada vez mais sem sentido e pra dizer que você continua, continua... 

com amor Marcus







| Fotos: Marcus Groza - São Bento do Sapucaí, 2012|






Aqui uma carta que a Julia Mendes escreveu pra você e que mostra que você continua, continua... 



Zizi, para onde reportar essas cartas que eu escrevo?
te vejo em tantos cantos da cidade, uma cidade avessa, submersa, y quase sempre, querida, nos meus sonhos. há alguns dias descobri uma pequena parte sua que você deixou aqui. há meses, muitos meses mesmo, você esqueceu um relógio de pulso na minha casa: eu até pensei na época: quem é que anda com relógio de pulso nos dias de hoje? y ri, porque você era dessas, de relógios de pulso y galochas. cheguei a levar o relógio diversas vezes para são paulo, mas entre as conversas, fugas, encontros nossos sempre me esquecia de te devolver y acabava trazendo-o de volta para casa - a ver que o relógio percorreu mil vezes esse caminho da dutra, que nós mesmas também percorremos tanto juntas. a questão é que esse (maldito y bendito) relógio sempre apitava à noite por conta de um alarme que você havia programado para lembrar a hora do remédio que estava tomando - já não posso recordar qual. y por todos esses meses desde que você o esqueceu, o alarme seguia apitando, y eu só me recordava dele ao despertar com o barulho y pensava maldito! bendito! relógio! teve vez de alguém me perguntar "por que esse relógio apita todo dia? de quem é esse relógio? por que você acorda todo dia a essa hora?", e eu tentava responder simplesmente com o seu nome "iza", como se o seu nome fosse capaz de explicar qualquer coisa fora de órbita y que circundava também todas as coisas que faziam parte desse amor e dessa amizade. eu também não sei porque mas nunca tive a brilhante ideia de desligar o alarme, que era obviamente incomodo, mas cômico, em qualquer circunstância. voilá... faz tanto tempo que eu não ando perto de casa, dessa casa aqui, que eu havia me esquecido disso tudo. y agora, ao volver em terras cariocas, nesses dias mesmo quando fui dormir, de repente ouvi o maldito-bendito! alarme: tomei um susto: desses que são como uma lembrança severa... levantei rapidamente e corri atrás do relógio. derrubei tudo no escuro para achá-lo. achei. fitei-o por bons minutos. ri. e segui por tanto tempo rindo até ser capaz de chorar um pouco. ri. ri. ri. oh, querida, agora eu é que não sei mesmo o que fazer com esse relógio que dorme no meu pulso y me acorda todo dia às 23h50, com gargalhadas y prantos, gargalhadas y prantos, e que espero aos poucos tornarem-se apenas gargalhadas, y que espero também sempre poderem me fazer lembrar de ti assim. porque você era assim. de relógios de pulso y galochas.








| Fotos: Marcus Groza - Bairro do Souza, Monteiro Lobato, 2015 |

Um comentário:

Carol Beltran disse...

Demais vcs escreverem tudo isso pra ela.
Sinto falta de conversar com ela, da sua presença.
Mas sabe q faz parte do meu tratamento escrever muito pra ela. Mando imbox mesmo contando as coisas que contaria pra ela normalmente. Me faz bem. Alivia um pouco a sua falta.
Bjs pra vcs 2
Carol Beltran