quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Poema de Felippe Regazio



o estranho teorema das nuvens


hoje eu pensei
em mil
respostas
pra te dar

puta merda
eu me dei
mil respostas imaginárias
e fiz café
e mate
e pão na chapa
e macarrão
e não dormi de novo

eu pensei em mil respostas
e em mil desculpas
e em mil coisas nenhumas
pra falar
mas eu ando
tão cansado

eu pensei em mil teorias
autores
referencias
links
memórias
impressões
coisas bonitas
e coisas perfeitas
pra jogar na sua cara

mas, merda
eu ando mesmo muito cansado.

eu deixei a televisão ligada
enquanto cozinhava e fiquei
escutando as notícias dos crimes
e mortes e comerciais e ambição
e lá fora tinha começado a nascer
um dia terrívelmente incrível

desses qu'eu não gosto
porque eu prefiro o frio

mas dessa vez não,
dessa vez
o dia tava irritantemente lindo
e eu senti o gosto
do tempero industrial
e o cheiro do alho
queimando na panela
e aquela velha impressão
de irreversibilidade
que me assusta
de uma forma
infantil e, uau,

gostar de você
já não me serve mais pra nada

e eu senti tanto por isso
eu senti tanto pelas nuvens
se afastando num estranho
teorema de despedia
e pelas notícias na televisão
e por aquela manhã e
por existir
naquela mesma manhã
de uma maneira
tão estúpida e bruta
que o mesmo dia
poderia ter nascido
limpo e belo
exatamente do mesmo jeito
mas sem mim,

eu senti tanto
que tenhamos nos amado tão mal.

daqui umas semanas
eu vou subir pro
norte e ser covarde
e lunático e egoísta
como você disse

eu vou respirar o ar
da mantiqueira
e choromingar por comida
e criar calos nas mãos
descarregando carga
pra caminhoneiros
qu'eu nunca mais vou ver

eu vou cortar os pés
em cacos de vidro
e adoecer e me curar
e fazer amigos
que serão
pra sempre estranhos
e lembrar de você
e de tudo mais pelo caminho
gastando o mesmo chinelo velho
até sentir que os meus motivos
pra ter escrito tudo isso aqui
já estarão longe o bastante pra caber em mim.




Felippe Regazio atualmente vive em São Paulo e escreve. Publicou “Oceana” em 2013 pela editora Ponto da Cultura e “Atentado Contra a Vida das Coisas Belas” em 2015 em edição artesanal. Em 2016 recebeu menção honrosa pela Universidade de São Paulo com os poemas do livro “Sonata em Mi Menor Para Porcos e Outros Quadrúpedes”. Felippe organiza “antologias alternativas” e tem diversos trabalhos publicados em revistas como Subversa, Labirinto Literário, Mallarmargens, O emplastro.

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