segunda-feira, 26 de junho de 2017

Dos espantos poéticos de Kelly Guimarães

DIVINDADE

desejo crer no deus
é tão verdadeiro este meu querer
que nunca forjei para mim
a imagem de uma divindade.

quero que o deus exista,
sem que seja minha imagem e semelhança,
sem que seja inventado
por meu inconsciente e as violações, o outro.

preciso ter o deus.
sinto que vou morrer de um mal de mágoas,
do rancor enraizado nas minhas carnes.
do des-espero na lonjura das coisas que não posso tocar.

...

minhas mãos estão doloridas,
minha voz secou.
me localizo num fora-dentro,
o olhar estrangeiro para uma vitrine.
tristeza que se modifica em aborrecimento do tempo,
das pessoas com suas risadas e suas distrações,
do meu corpo que não se aloja, que não se ata

e do deus que não vem.

...

DE QUANDO A GENTE ERA CRIANÇA

lembranças: as da infância.
os amigos no portão de casa chamando para brincar. um caderno de música do qual cantávamos todas as folhas sentadas na escada de minha casa. aniversários, bicicletas. bolas que rolaram pela avenida e nunca mais recuperamos; isso partiu nosso coração!

para onde foram todas as crianças daquela rua? onde se ouve agora seus gritos e suas risadas? os joelhos que sangraram ergueram sobre si homens e mulheres? não sei.

não sei para que cidade foram as crianças, não sei se cresceram ou se partiram, apenas me lembro do cheiro da chuva, do pêlo dos cães, do pó nas chinelas.

sonhos tivemos muitos. eu estava mesmo lá e lá deixei minha criança. ensaio às vezes buscá-la, mas chove muito e a rua está perigosa, hoje não tem vento, não dá pra soltar pipa e mesmo não sei se posso correr aquele tanto para roubar a bandeira.

passaram-se os anos. as aulas acabaram. restou-me muita lição de casa!

[mas sei que dia desses me sentarei sobre a terra que guarda as raízes da laranjeira e uma joaninha pousará em meu braço, nessa hora saberei o que foi e terei a paz de ter sido, sem sentir saudade, apenas alegria dos dias de groselha e dos outros todos que vieram depois e até aqui.]

...





Kelly Guimarães  aprendeu a ler aos sete anos, em Minas Gerais. Vive em São Bernardo do Campo. Acha que saber ler é muito legal! Já coisou teatro datilografia filosofia moda literatura e crochê. Atualmente faz o melhor arroz doce do mundo e sonha, exceto quando dorme. 

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