sexta-feira, 30 de junho de 2017

O Homem Incompleto - de Natália Zuccala

O homem incompleto construiu uma casa sem teto num jardim sem flores num bairro sem velhos. O homem incompleto nunca ficaria velho.
O homem incompleto nunca acabava as frases. Não colocava os pingos nos is, não cortava os tes e nem sabia o que era a cedilha.  O homem incompleto não tinha acento, nem maiúsculas, nem inclinações. Ele era só do substantivo, usava alguns adjetivos e até gostava de verbos. Mas o homem incompleto detestava os pronomes, as conjunções e as orações coordenadas. O homem incompleto morreu de sintaxe.
O homem incompleto sempre me procurava para conversar. Quando ele falava, fechava os olhos, quando olhava, não podia falar. Eu gostaria de comer, eu lhe dava. Eu gostaria de beber, lhe cedia. Eu gostaria de ler, lia. Eu gostaria de ver, lhe abria. Eu gostaria de ir, levava. Eu gostaria, daí buscava.
Ele vinha até mim porque parecia que eu lhe entendia. A bem da verdade eu descobri depois: não era que eu lhe entendia, nem que eu lhe completava, o homem incompleto me buscava porque meus gostos eram os seus gostos. Eu, quando lhe servia, servia era a mim mesmo, buscando sempre minhas boas vontades e inclinações naturais. Ele, quando era servido, servia a mim e em mim encontrava guardadas suas próprias preferências. Por verdade ou vontade. Ademais, não me incomodava.
Na casa do homem incompleto chovia dentro, se chovia fora. Fazia sol quando o sol quisesse. Podia nevar, se a terra calhasse; podia soltar, se o vento levasse e a primavera, se o passarinho deixasse. Na casa incompleta os utensílios eram disfuncionais e os manuais faziam filas nos armários. 
O homem incompleto também sabia trabalhar. Fabricava garrafas sem tampa. E assim passava sozinho toda hora que não acompanhado. Não que ele não pudesse, sozinho, o que fazia junto. Fazia. Sozinho o que quisesse. Mas o homem incompleto me procurava era pra eu terminar as suas frases. O que eu fazia era ser terminador.
Um dia o homem incompleto me pediu pra lhe comprar um bicho de pôr no quintal. Eu não tinha nem bicho, nem quintal. Minha casa, mesmo com teto, era menor do que a do homem incompleto. Cachorro, gato, galinha, pato. Eu, que não estimava bicho, como é que ia querer bicho pra ele? Vá lá você, eu disse. Escolhe você. O que quer? Falou nada. Comprei-lhe um bicho mais por si próprio, individualista. Que era o que eu sabia que funcionava pra um homem daquele, que não dava conta nem dele mesmo. Uma gralha. Comprei-lhe uma gralha e cortei as asas, de modo ela podia andar na casa e no quintal conforme suas próprias vontades.
A gralha se aprumou no teto da cabeça do homem incompleto e nunca mais saiu de lá. Que quintal que nada! Agora, ao invés de incompleto, parecia era de sobra, junto dum resto em cima da cabeça. Só parecia, parecia do jeito de ser o de sempre, de sobra ela não tinha nada. E a gralha cantava, cantava no topo do mundo. Quando ele queria ouvir a gralha, tinha de fechar os olhos, quando fechava os olhos, só podia ouvir a gralha. Gralha não canta bonito, não sei se você sabe, gralha nem canta direito, não aquela, gralha parece apito. Então o homem passava o dia inteiro ouvindo apito, e não ouvia mais nada. Quando a gralha dormia, dormia, quando a gralha apitava, apitava. Eu lhe procurava, pra ver se ele abria a boca, mas nada.
Passou dia, mês e ano, ou nem tanto, e ele só dava pra conta da gralha. Deixou emprego, comia alpiste e dormia palha. Um homem incompleto nascia pra ser incompleto, não pra ser gralha. Pra ser servido. Além do quê, dava pra ver que a gralha também já não passava bem. Tinha que cantar, cantava, mais por imitação de si mesmo do que por esperança. Sabia que não voava, lhe cortaram as assas, era gralha incompleta, sem ser gralha, era meio galinha... cachorro, gato, pato.
Acontece que o homem, depois de tempo, passou a apitar também. Se apitava, não fazia mais nada. E mais nada fez, só apitava. Não sabia abrir a porta, não abria. Não sabia abrir os olhos, não abria. Não sabia abrir as mãos, não abria. Não sabia, não abria, não era nada. Só gralha. E eu gritava, gritava feio, mas ele não sabia abrir os ouvidos também. E não abria.
A vizinhança foi se irritando. Que a gralha pelo menos apitava afinado; irritado, mas afinado. Já homem ganindo junto de sua gralha... Era aflição de ouvido, era doença. Os ouvidos da vizinhança foram começando a inchar. A vizinhança sofria de agonia e desgaste. Mas eles... o homem e a sua gralha, eles gritavam e só. Sabe-se lá por que, mas só gritavam. Tinham que parar de exclamar.
Deu no que podia dar, depois de juntar aquela aglomerado em volta da casa, arrombaram a porta. Tudo querendo olhar pra gralha, gritar pra gralha, matar a gralha. Podiam ter escalado a casa, casa que não tinha teto. Mas arrombaram foi duma só força, numa explosão invadiram o corpo da casa feito maremoto indomável e assassino. Fez-se o barulho maior do mundo, fez-se um estrondo profundo e não se ouviu mais nada. Por pouco tempo mais nada. 
Instante de tempo mínimo que não acabava nunca, tempo que se consumava longo, longe, ali. Segundo de finação em suspenso dentro dos ouvidos do mundo. Silêncio, chamava-se. Silêncio. Narrativa auditiva da morte.
De facínora multidão procissão involuntária fomara-se. Bem como, ao longe e pausada, uma marcha fúnebre consentida, uma toada baixinha e uma epígrafe bem trajada. Ouvia-se a canção do fim dado, a música do final consumado, a conclusão do fim do finado, homem incompleto.



Natália Zuccala é contista, dramaturga e professora. Graduada em Letras na USP. Dá aulas de Língua Portuguesa e Literatura na Escola da Vila. Integra o coletivo de dramaturgos ANTESSALA

Nenhum comentário: