segunda-feira, 26 de junho de 2017

Palavras afogadas em sons - experiência eletroacústica de Júlia Teles

Trecho Inicial da obra Galáxias, de Haroldo de Campos

Clique no link para ouvir:


Desde 2011 eu sou compositora de música experimental. Para mim, a grande vantagem de trabalhar com artes experimentais (em geral) é poder inventar os próprios procedimentos de trabalho. Qualquer material a priori pode ser usado. No campo do som, esses limites parecem não existir; podemos usar ruídos, sons sintetizados, voz com texto, voz sem texto, objetos, instrumentos. Também podemos partir de materiais de outros tipos para iniciar a criação sonora, por exemplo, um texto, uma poesia, um quadro, um espetáculo.

Nesse texto vou comentar um pouco o processo de fazer música experimental a partir de texto (nesse caso, poético). Em 2015, realizamos um concerto do NME (https://www.facebook.com/nmelindo ) na Casa das Rosas chamado li-vro. O NME é um coletivo de música experimental atuante no estado de São Paulo desde 2011 e do qual faço parte. Naquele projeto, cada compositor estava incumbido de criar uma obra sonora a partir de um texto de sua preferência. Escolhi o livro Galáxias, de Haroldo de Campos, pois tinha lido recentemente alguns textos desse livro e gostado bastante. Em geral, os textos possuem fluxo muito intenso (parecem não ter começo e nem fim) e que possuem uma sonoridade bem peculiar. Muitas repetições, muitas línguas estrangeiras no meio. Resolvi pegar o primeiro texto e o último para trabalhar: logo descartei o último, pois o primeiro já tinha um material denso e rico e achei que seria melhor focar nele.


O próximo passo era definir como me aproximar do material textual. Logo de cara, vi que o que me interessaria mais era a forma do texto, que parecia caótica e entrecortada. Decidi ir por aí, tentar entender um pouco do procedimento de criação do autor para usá-lo. Mas eu também não queria usar apenas a forma e desperdiçar o conteúdo das palavras do próprio texto. Creio que cada palavra contém uma imagem (gerada pela combinação das letras), um sentido e um som. Resolvi, então, usar a sonoridade do texto - algumas repetições, rimas, variações, etc -, algumas vezes com seu sentido outras tentando fragmentar para que perdesse o significado.

Assim, o primeiro procedimento foi gravar o texto na íntegra. Em seguida, manipulei essa gravação em diversos programas de edição e alteração de som, de forma a criar alguns buracos, acelerações. Gravei alguns outros tipos de sons, como uma folha sendo amassada e um rangido - na mesma ideia de distorção das coisas (do texto e dos sons). Depois de criadas essas manipulações, fiz um trabalho de colagem, de colocar os fragmentos onde eu achava que elas deveriam ficar, criando momentos mais caóticos e outros mais calmos e compreensíveis. Na segunda metade da peça, usei os mesmos materiais sonoros, mas os trabalhei de forma muito mais abstrata, usando principalmente loops, que eram acelerados e desacelerados. Ao final, o texto foi retomado.


Há muitas formas de se aproximar de um material textual. Eu poderia, por exemplo, ter lidado somente com o material imagético do texto, com os assuntos do qual ele fala. Nesse caso, tudo fica mais misturado, pois além de todas as formas e assuntos abordados, o autor faz metalinguagem, escreve sobre escrever. Caso o texto tratasse de uma história mais tradicional, linear, eu poderia tentar criar "climas" que se relacionassem com os acontecimentos do livro. Ou poderia tentar contar a história, dar conta da narrativa em si. Como já dito, tudo pode ser feito em matéria de experimentação. Compor sobre um texto é como dançar sobre arquitetura (copiando uma frase famosa mas distorcendo-a um pouquinho). A tradução em algo diferente, nesse caso, não é exata, e sim totalmente subjetiva, passando apenas pelas escolhas e interpretações do criador sonoro. Na verdade, nem é uma tradução, mas uma transdução, pois estamos gerando um material fisicamente diferente.

Certa vez ouvi a história de um escritor que recusava a qualquer pessoa se inspirar em sua obra para criar óperas, ballets, outras obras: a ideia de perder o controle dessas ramificações de suas histórias era dolorosa. Por isso, não se deve confundir a obra original com obras livremente inspiradas nelas. Se eu tivesse que fazer jus à qualidade do texto do Haroldo de Campos para poder compor a partir de seus trabalhos, eu nem me arriscaria. Mas também penso que devemos ser livres para tentar nos comunicar e usar a obra dos outros (sempre dando os devidos créditos, claro). Fazer uso de referências.


NOTAS:

1- O NME tem uma revista online, a linda (http://linda.nmelindo.com/), e por alguns anos a escritora Natália Keri criou textos à partir de sons, e alguns compositores criaram sons a partir de seus textos. Esse material pode ser acessado aqui http://linda.nmelindo.com/?s=keri .

2 - Todas as obras criadas para o projeto li-vro podem ser escutadas aqui (https://nmelindo.bandcamp.com/album/li-vro). 




Julia Teles é compositora e editora de som. Seus trabalhos incluem composição de música experimental, improvisação, composição de trilha sonora para filmes e teatro e edição de som para filmes (no estúdio Sonideria). Faz parte do coletivo NME, que desde 2011 tem produzido concertos e uma revista online (linda) sobre cultura eletroacústica e experimentalismo. Mais informações:  http://juliateles.com/

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