sábado, 14 de outubro de 2017

Narrativa e Poema, de Leo Mandi



A Bailarina do Vulcão Invertido


Sou frio meu suor serve
para bailarina patinar no gelo.
Enquanto sou duro
o imenso pátio congelado
sou sem camisa e sem osso
o mar glacial ártico.

A bailarina tem o fogo
para trincar meu peso
para emergir minhas águas.
Quando ela sua 
e concentra o fogo
em minha direção.

Do vão de suas pernas
ela manda fogo para baixo.
quebra meu lago de vidro
e cai de vulcão invertido
dentro de mim.






Tapete de Música Urbana


A garrafa de vodka vazia desce pela enxurrada, separação de corpo de rio produzida pela chuva no meio da cidade carregando inúmeras embarcações de lixo, caixas de suco, papéis e sua carta bem escrita.
O que acontece quando um trem passa e um ônibus cheio de passageiros é obrigado a parar!? E soa o gongo com batidas ininterruptas com a duração de quase meia hora?
O que passa na cabeça dos passageiros e o trem está passando e uma chuva despenca ao mesmo tempo. Num mormaço agonizante.
E dentro do ônibus todos os passageiros e inclusive os passageiros contratados estão sentados. E um homem que não é um passageiro contratado está de pé. Está escrito hortelã numa porta de vidro numa loja do outro lado da calçada ao lado do ônibus.
A garrafa de vodka é semelhante a uma embarcação de vidro. A garrafa sobe e desce enquanto viaja nas ondas de esgoto cheias de mijo de rato e membros de baratas divididas.
A garrafa de repente encontra um lugar seco, uma porção seca, um pedaço de calçada que não foi atingido pela chuva e a garrafa fica ali estacionada, como se fosse a arca de noé depois do encerramento do dilúvio.
O velho Sabará, um senhor com problema mental, que mora na rua. Levanta-se do banco de concreto, atravessa a rua, quase sendo atropelado por um caminhão, pega a caravela de vidro e a coloca de novo na continuação da enxurrada.
A garrafa retoma seu caminho de água. Vazia e quase perdendo o rótulo azul, com um risco prata brilhante.
Um cachorro passa pela enxurrada, com os pelos pesando o dobro devido ao acúmulo de chuva no dorso.
O cachorro vai em direção ao navio de vidro e coloca suas patas dianteiras no gargalo da garrafa, afogando-a.
O velho Sabará arregala os olhos ao ver a cena--a intervenção do animal sobre o casco de vidro.
Depois de alguns segundos, o Velho Sabará muda sua expressão para algo mais semelhante a alguém que está intrigado com o que vê.
A garrafa escapa das patas do cachorro e ergue o bico acima da água e continua descendo e subindo as ondinhas sujas dos asfalto produzidas pelo esgoto de centro.
O cachorro a persegue, ergue as patas e as lança no pescoço de vidro da garrafa outra vez. E fica com a garrafa embaixo de suas patas sendo asfixiada pela falta de oxigênio novamente. Dessa vez deixando-a embaixo d`agua mais tempo.
O velho Sabará atravessa a rua sem prestar atenção direito em uma motocicleta que surge em alta velocidade.






Leo Mandi é escritor e músico. Autor do livro "Minhoca de Chocolate" (2010), é integrante da banda Submarino Quântico (Ouça EP da Banda).



 |foto Melissa Rahal|

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