sexta-feira, 6 de abril de 2018

Odes provisórias, de Mario Benedetti





Ode à Pacificação

Não sei até onde vão os pacificadores com seu ruído metálico de paz
mas há certos corretores de seguros que já assinam apólices contra a pacificação
e há aqueles que reclamam a pena de morte para os que não querem ser pacificados
quando os pacificadores miram por certo só atiram para pacificar
às vezes até pacificam dois coelhos com uma cajadada só
é claro que há sempre um tolo que se recusa a ser pacificado pelas costas
ou algum estúpido que resiste à pacificação na surdina
somos realmente um país muito peculiar
que quem pacificar os pacificadores um bom pacificador será




Oda a la pacificación

No sé hasta dónde irán los pacificadores con su ruido metálico de paz
pero hay ciertos corredores de seguros que ya colocan pólizas contra la pacificación
y hay quienes reclaman la pena del garrote para los que no quieren ser pacificados
cuando los pacificadores apuntan por supuesto tiran a pacificar
y a veces hasta pacifican dos pájaros de un tiro
es claro que siempre hay algún necio que se niega a ser pacificado por la espalda
o algún estúpido que resiste la pacificación a fuego lento
en realidad somos un país tan peculiar
que quien pacifique a los pacificadores un buen pacificador será.




Ode à mordaça


Não creio em ti
mordaça
mas vou dizer
por que não creio

já vês
agora não digo
não hoje
nem aí

e entretanto
igualmente destampo o verbo
respiro o grito
e armo a blasfêmia

penso
logo insisto

faço inventário
do teu alegre palpite da miséria
de tua crueldade sem muitas ilusões
de tua ira ilustrada
de teu medo
porque mordaça
tu
és muitíssimo mais que um trapo sujo
é a mão trêmula que te ajuda
é o dono flamejante dessa mão
e até o dono canalha do teu dono

porque mordaça
és muitíssimo mais do que um trapo sujo
com gosto de boca livre e palavrão
és a lei malfeitora do sistema
és a flor moribunda da infâmia

penso
logo insisto

sob tua custódia meus lábios estão apertados
como meus incisivos
caninos
e molares
como minha língua
como meu discurso
em compensação não minha garganta

em minha garganta começo
de imediato 
a ser livre
às vezes engulo a saliva amarga
mas não engulo meu rancor sagrado

mordaça bárbara
mordaça ingênua
acreditas que não vou falar
mas falo sim
simplesmente por ser
e por estar

penso
logo insisto

que me importa calar
se falamos todos
por toda parte as paredes
e por todos os signos
que me importa calar

se já sabes
obscura
que me importa calar
se já sabes
mordaça
que vou te chamar
porcaria!




Oda a la mordaza

No creo en vos
mordaza
pero voy a decirte
por qué no creo

ya ves
ahora no digo
no hoy
ni ay

y sin embargo
igual destapo el verbo
respiro el grito
y armo la blasfemia

pienso
luego insisto

hago inventario
de tu alegre pálpito de la miseria
de tu crueldad sin muchas ilusiones
de tu ira lustrada
de tu miedo
porque mordaza
vos
sos muchísimo más que un trapo sucio
sos la mano tembleque que te ayuda
sos el dueño flamante de esa mano
y hasta el dueño canalla de tu dueño

porque mordaza
sos muchisimo más que un trapo sucio
con gusto a boca libre y a puteada
sos la ley malviviente del sistema
sos la flor bienmuriente de la infamia

pienso
luego insisto

a tu custodia quedan mis labios apretados
quedan mis incisivos
colmillos
y molares
queda mi lengua
queda mi discurso
pero no queda en cambio mi garganta

en mi garganta empiezo
por lo pronto
a ser libre
a veces trago la saliva amarga
pero no trago mi rencor sagrado

mordaza bárbara
mordaza ingenua
crees que no voy a hablar
pero sí hablo
solamente con ser
y con estar

pienso
luego insisto

qué me importa callar
si hablamos todos
por todas partes las paredes
y por todos los signos
qué me importa callar
si ya sabés
oscura
qué me importa callar
si ya sabés
mordaza
lo que voy a decirte
porquería.






Ode ao apagão


Agora sim que é noite
e tenebrosa
te lembras de quando a corja impunha
uma só confiança por ambiente
e poucas velas

o apagão é grande
e extenso

agora sim que é noite
e à noite todos as leis são pardas
a liberdade está como boca de lobo
da justiça não se vê nem as mãos

o apagão é grande
e extenso

me empresta teu vagalume do povo
sua palpitação sem sombra
seu lumiar inesgotável
veja se estamos todos
como cães de guarda
e depois o apague
o apague e depois
pensemos ou ruminemos ou
sonhemos de olhos bem abertos
até que chegue
inexorável 
o dia.




Oda al apagon



Ahora sí que es de noche
y tenebrosa

te acordás cuando el bando reclamaba
una sola confianza por ambiente
y de pocas bujías

el apagón es grandey extendido

ahora sí que es de noche
y de noche todas las leyes son pardas
la libertad está como boca de lobo
la justicia no se ve ni las manos

el apagón es grande
y extendido

prestame tu luciérnaga de pueblo
su latido sin sombra
su foco inagotable
mirá si estamos todos
como perros guardianes
y después apagala
apagala y después
pensemos o rumiemos o
soñemos con los ojos bien abiertos
hasta que llegue
inexorable
el día.




Tradução _ Marcus Groza 

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