terça-feira, 10 de julho de 2018

Ateu-Místico: Quatro poemas de Teofilo Tostes Danel



Espaço público


Dia a dia, são diásporas
que transmutam as entranhas
das cidades. Megalópoles
erigem distâncias tantas,
fundam tribos sem contato
e sem qualquer vizinhança.

A carne da multidão
se esvai em sangue no cinza
asfalto, donde não rompem
quaisquer flores improváveis.
Célere, transita a vida
sem chegar a não-lugares.

Faustos, beatos, pactários,
faunos, putas, cramulhões,
rábulas, cegos, senhores,
indigentes e doutores:
os frágeis pés dessas gentes
acumulam pó das ruas.

Os pés passam desfilando
o transitório das gentes
sobre o pó de todo espaço.
Público. Local de encontro,
concerto ou desacerto
de almas sempre sozinhas




              Corpo cerzido







Trago nas mãos
o cheiro escuro e acre
de um medo
que comecei a adquirir

antes mesmo da linguagem.

O medo recende a carne crua,
a gordas gosmas de vísceras
cortadas pelo fio fino, frio e preciso

de um bisturi.

Ouço o fio de voz
sussurrado pelas sete cicatrizes
espalhadas em meu corpo.
A sensibilidade mais aguda
sob a pele fechada dessas feridas
testemunha o medo

da morte.

Morte não havida,
dessas que pesam

e aliviam.

Em meu corpo cerzido,
um corte cerrado
na planta do pé direito
e outro no tornozelo
testemunham esses milagres que são

meus passos.

Entre a linha imaginária da cintura
e a da base da pélvis
há tanta marca,
tanta agenesíase,
que do intacto períneo,

de onde imagino irradiar –

vértebra
a
vértebra –

a alquebrada kundalini,

jorram as palavras
e a própria força

da voz.






           Se eu acreditasse num deus






se eu acreditasse
num deus

não seria no seu

que se vinga para sempre
da ignorância
e da fragilidade humanas

que demanda louvores uníssonos
ou destina quarenta virgens
para serem eternamente
estupradas por assassinos
que explodem pessoas aleatórias
e o próprio templo-corpo
em nome da pureza da fé

que é menos capaz
de acolher o múltiplo e o diverso
do que a própria humanidade

que não ri condescendente
das estranhezas do comportamento humano
como pais riem
dos pensamentos pueris
de seus filhos pequenos

se eu fosse tocado pela graça
de crer em alguma coisa para além
da agnosia
minha divindade seria

mais mãe do que pai
mais Gaia do que Yahweh
mais terra do que céu
mais água do que fogo
mais fecundidade do que ascese
mais mística do que dogma
mais andrógina do que máscula

mais amor

do que o amor condicional
dos deuses
em que jamais fui capaz de crer





Canção profética
(Para Fabiana Turci)

O vento sopra e espalha meus cheiros
Danço no rastro de uma melodia
Giro-me na gira dos dervixes
Penso com o tambor do peito
Digo a melodia do desejo
Ajo onde os olhos põem minhas mãos
Invento o tempo na casca oca e úmida de uma árvore
A umidade e o tempo enrugam minha pele
Ainda que a luz me falte, me restará a voz e minha possibilidade de cantar
Chamo um novo dia na chama da vela, que quase ilumina minha noite
Evoco ancestralidades e tempestades
Toco meu terreiro com pés e mãos nus
Piso o chão sagrado com o inteiro do corpo
Diluo-me em águas e pântanos
O Pentecostes é minha língua de fogo sobre a tua pele
Eu me perfumo com o cheiro agridoce de tuas virilhas
Uma canção profética já me anunciava
Pelo amor me alinho ao cosmo de palavras e sons
Eu te busco em meus pensamentos, palavras e atos
E assim tu estás comigo

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