quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Dois poemas do poeta coreano Choi Seung-Ho



Acima da Água e Debaixo d’Água

Enquanto os turistas atravessam o lago tranquilo

mergulhadores submergem até o fundo
para retirar o cadáver,
mas no fundo eles encontram um monte de lixo,
uma barriga inchada crescendo silenciosamente,
um monte gigantesco repleto de:
sapatos abandonados, vasilhas de plástico quebradas, pedaços de vinil,
todos chafurdando em lodo e água barrenta
onde fetos abandonados e larvas de gatos e cães jazem mutilados.
O monte se avoluma mais e mais
como aquele do cadáver.
Os mergulhadores observam caracóis de lagoa emburrados 
suas entranhas apodrecem, envenenadas pelas toxinas,
e a evidência de civilizações decadentes que se originaram perto da água,
decompondo-se pelo esgoto imundo excretado das tubulações

enquanto os turistas cruzam o lago tranquilo,
intoxicados pela beleza
das montanhas em volta e do hotel de luxo.

Traduzido do inglês por Marcus Groza


Above the Water, Under the Water

When the tourists cross the tranquil lake

divers plunge down to its bottom
to haul up the dead body,
but at a bottom they see a huge mound of waste,
a belly that’s bloated and silently growing bigger,
a giant waste mound filled with:
abandoned shoes, broken plastic containers, pieces of vinyl,
all wallowing in a muddy water and silt
in which the deserted fetuses and larvae of cats and dogs lie mangled.
The mound swells bigger and bigger
like that of a cadaver.
The divers observe sullen pond snails whose bowels rot, poisoned by toxins,
and the evidence of decaying civilizations that originated near the water,
rotting away from untreated sewage being excreted from pipes

while the tourists cross tranquil lake,
intoxicated by the beauty
of the surrounding mountains and resort hotel.

Translated from the Korean by Won-Chung Kim






A Cobra na Primavera

Uma serpente na primavera não deve ser odiada. Longe de ser repugnante, é de causar pena. Eu vi uma serpente fraca e abatida saindo de sua toca. E desejei que os sapos saíssem mais cedo da hibernação, para que ela pudesse se convencer de reunir forças. Se devo salvar a serpente ou poupar o sapo é o meu dilema pessoal. Às vezes, faço a serpente descomer o sapo pressionando a garganta dela com meu porrete, já outras vezes deixo que a cobra engula um sapo ou um rato do mato.

Diferente da cobra de outono, cujas escamas são brilhantes de veneno, a serpente na primavera é desprovida de vigor e se arrasta mais que desliza. Prostrada ao destino de nunca tirar a barriga do chão e à pesarosa busca por comida para sobreviver, a cobra da primavera se arrasta sozinha e apática ao longo de um campo pedregoso, inviável.

Traduzido do inglês por Marcus Groza


A Snake in Spring

A snake in the spring is not to be loathed. Far from loathsome, it is to be pitied instead. I watched a feeble, haggard snake coming out of its burrow. And I wished that the frogs would come out early from their hibernation so that the snake could be enticed to garner its strength. Whether I should save the snake or spare the frog is my own personal dilemma. At times, I’ll have the snake disgorge the frog by pressing its throat with my pole, and at others I simply let the snake be and allow it to swallow the frog or field mouse.

Unlike an autumn snake whose scales are glossy with venom, a snake in spring lacks vigor and slithers along lifelessly. Burdened by a fate to never lift its belly from a ground, and a sorrowful search for food to survive, the spring snake move listless and alone through a stony field with no path.

Translated from the Korean by Won-Chung Kim and James Han





Nenhum comentário: